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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

CARLOTINHA - A mim!


CENA XI

CARLOTINHA, PEDRO


CARLOTINHA - Nem sequer me olhou! E diz que gosta de mim! A primeira vez que me fala...

PEDRO - O moço está queimado, hi!...

CARLOTINHA - Ora, que me importa? O que te disse ele?

PEDRO - Perguntou por que nhanhã não queria responder à carta dele.

CARLOTINHA - Ah! É sobre isto mesmo... Tu sabes o que vim fazer, Pedro?

PEDRO (rindo-se) - Veio ver Sr. Alfredo!

CARLOTINHA - Eu adivinhava que ele estava aqui?... Vim te chamar porque mamãe quer te perguntar donde saiu esta carta que deitaste no meu bolso.

PEDRO - Nhanhã foi dizer?... Pois não!... Esta Pedro não engole.

CARLOTINHA - Chego na sala; vou meter a mão no bolso, encontro um papel; abro-o; é uma carta de namoro! Não sei como mamãe não percebeu!...

PEDRO - Ah! Nhanhã abriu!... Então leu.

CARLOTINHA - Não li! É mentira 

PEDRO (com um muxoxo) - Mosca anda voando; tocou no mel, caiu dentro do prato. Nhanhã leu!

CÁRLOTINHA - E que tinha que lesse?

PEDRO - Se leu, deve responder!

CARLOTINHA - Faz-te de engraçado! (Dando a carta.) Toma; não quero!

PEDRO - Nhanhã faz isto a um moço delicado!

CARLOTINHA - Saiu; e nem sequer me olhou.

PEDRO - Não sabe por quê? Porque nhanhã não quis responder à carta dele.

CARLOTINHA - E o que hei de eu responder?

PEDRO - Um palavreado, como nhanhã diz quando está no baile.

CARLOTINHA - Mas ele escreveu em verso.

PEDRO - Ah, é verso! E V.Mce. não sabe fazer verso?

CARLOTINHA - Eu não; nunca aprendi.

PEDRO - É muito fácil, eu ensino a nhanhã; vejo Sr. moço Eduardo fazer. Quando é esta coisa que se chama prosa, escreve-se O papel todo; quando é verso, é só no meio, aquelas carreirinhas. (Vai à mesa.) Olhe! olhe, nhanhã!

CARLOTINHA - Sabes que mais? A resposta que eu tenho de dar é esta: dize-lhe que, se deseja casar comigo, fale a mano.

PEDRO - Ora, tudo está em receber a primeira; depois é carta para lá e carta para cá; a gente anda como correio de ministro.

CARLOTINHA - Eu te mostrarei.


CENA XII

PEDRO, EDUARDO e AZEVEDO EDUARDO - Onde vai?


PEDRO - Ia abrir a porta a meu senhor!

EDUARDO (para a escada) - Entra, Azevedo! Eis aqui o meu aposento de rapaz solteiro; uma sala e uma alcova. É pequeno, porém basta-me!

AZEVEDO - É um excelente appartement! Magnífico para um garçon... Este é o teu valet de chambre?

EDUARDO - É verdade; um vadio de conta!

PEDRO (a AZEVEDO, em meia voz) - Hô... Senhor está descompondo Pedro na língua francesa.

EDUARDO - Deste lado é o interior da casa; aqui tenho janelas para um pequeno jardim e uma bela vista. Vivo completamente independente da família. Tenho esta entrada separada. Por isso podes vir conversar quando quiseres, sem a menor cerimônia; estaremos em perfeita liberdade escolástica.

AZEVEDO - Obrigado, hei de aparecer. Ah! tens as tuas paisagens signées Lacroix? Mas não são legítimas; vi-as em Paris chez Goupil; fazem uma diferença enorme.

EDUARDO - Não há dúvida; mas não as comprei pelo nome, achei-as bonitas. Queres fumar?

AZEVEDO - Aceito. Esqueci o meu porte-cigarres. São excelentes os teus charutos. Onde os compras? No Desmarais?

EDUARDO - Onde os encontro melhores. (PEDRO acende uma vela.)

PEDRO (baixo) - Rapaz muito desfrutável, Sr. moço! Parece cabeleireiro da Rua do Ouvidor!

EDUARDO - Cala-te!

AZEVEDO (acende o charuto) - Obrigado!... Eis o que se chama em Paris - parfumer la causerie!


CENA XIII

EDUARDO, AZEVEDO


EDUARDO - Com que então, vais te casar? Ora quem diria que aquele Azevedo, que eu conheci tão volúvel, tão apologista do celibato...

AZEVEDO - E ainda sou, meu amigo; dou-te de conselho que não te cases. O celibato é o verdadeiro estado!... Lembra-te que Cristo foi garçon!

EDUARDO - Sim; mas as tuas teorias não se conformam com esse exemplo de sublime castidade!

AZEVEDO - Considera, meu caro, a diferença que vai da divindade ao homem.

EDUARDO - Mas enfim, sempre te resolveste a casar?

AZEVEDO - Certas razões!

EDUARDO - Uma paixão?

AZEVEDO - Qual! Sabes que sou incapaz de amar o quer que seja. Algum tempo quis convencer-me que o meu eu amava a minha bête, que era egoísta, mas desenganei-me. Faço tão pouco caso de mim, como do resto da raça humana.

EDUARDO - Assim, não amas a tua noiva?

AZEVEDO - Não, decerto.

EDUARDO - É rica, talvez; casas por conveniências?

AZEVEDO - Ora, meu amigo, um moço de trinta anos, que tem, como eu, uma fortuna independente, não precisa tentar a chasse au mariage. Com trezentos contos pode-se viver.

(continua...)

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