Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Você quanto deve, ó tio Simeão? – perguntou.
– Quanto devo? Você quer pagar-me as dívidas?
– Pode ser. Você deve à Irmandade de Nossa Senhora de Negrelos um conto e cem mil-réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Há-de andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo. – É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua – um conto e quinhentos e pico.
– Quanto é o pico?
– Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao mercador e um restito da vaca amarela que comprei ao Tarraxa na feira dos 13.
– Você quer fazer um cambalacho? – tornou o pedreiro recuando o chapéu para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos ombros.
– Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer comprar-me o lameiro da azenha – não vendo.
– Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim. Você está a falar c'um home. Pago-lhe as dívidas, você não fica a dever nada, e eu caso com a sua Marta. Pode dar os bens ao outro filho que eu não lhe quero uma de X.
– Você fala sério, ó sor Zeferino?
– Se falo sério?! Então você não sabe com quem é que trata.
– Ora bem – entendamo-nos – é a rapariga que você quer, a rapariga estreme, sem dote nem escritura? – Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.
– A rapariga é sua.
Negociara a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarraxa a vaca amarela na feira dos 13. Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido numa cidade culta. Conversou-se este diálogo debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem gorjeado de pássaros, com uns tons de luz esverdeada, na doce placidez crepuscular de uma tarde de Agosto, entre dois homens de tamancos, arremangados, com os peitos cabeludos a negrejar de entre os peitilhos da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na frase. Análogas passagens, com estilo pouco melhor, têm sido dramatizadas nas salas, entre homens da melhor polpa e casca social – uns que mandaram ensinar às filhas os verbos franceses e são assinantes do Journal des Dames que marca às meninas a baliza até onde pode chegar o arrojo da língua francesa e os seus mais avançados destinos. Da outra parte, homens ricos, de fígado ingurgitado, fatigados, sedentos de senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne constelada de diamantes. É o epílogo de vinte anos de lavra dura, o substrato da compra de negras a milhares: – comprar uma branca, das que o amor pobre e o talento estéril não podem negociar. O contrato feito em Prazins – eis a diferença – por parte do pedreiro era um heroísmo: dava o seu dinheiro por aquela mulher; daria mais depressa o seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados em corações civilizados, quase desfeitos. Ora, os pedreiros que vêm de além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem cumpram assim. Fazem o dote económico, comezinho à esposa. Compram uma máquina de propagação, condicionalmente. Se, extinto o comprador, a máquina, não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O defunto prefere que a sua viúva, adelgaçada e espiritualizada por jejuns, lhe converse com a alma.
II
Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira via, 48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava a liquidar para vir, enfim, descansar‚ de vez, que já tinha para os feijões. Recomendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se ainda houvesse conventos è venda, os fosse apalavrando até ele chegar.
– Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos! – exclamou o Simeão, e foi mostrar a carta ao padremestre Roque, ao Trepa de Santo Tirso e ao ex-capitão-mor de Landim; e, como encontrasse na feira o dono do mosteiro dos beneditinos, o Pinto Soares, um deputado gordo – a retórica viva do silêncio mais facundo que a língua, de uma grande pacificação sonolenta –, perguntou-lhe se queria vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como um homem que acorda com espírito e um pouco de ateísmo, respondeu-lhe que não vendia para não transmitir ao comprador a excomunhão que arranjara comprando bens das ordens religiosas. Mas o Simeão, em matéria e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez a invenção de Franclim. Continuava a perguntar a toda a gente se sabiam de conventos à venda, ou quintas ai para quarenta mil cruzados.
O Zeferino das Lamelas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o negócio fechado num conto quinhentos e pico, procurou o lavrador para se cuidar dos banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de abstracção palerma, disse-lhe a mastigar as palavras:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.