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#Contos#Literatura Brasileira

Questão de vaidade

Por Machado de Assis (1864)

Pedro Elói, esse com certeza adivinharia tudo e diria tudo quanto pensasse. De longe, Eduardo podia desdenhar os conselhos prudentes do amigo, a quem chamava filósofo e santo milagroso; mas de perto, não seria assim. Pedro Elói tinha, de fato, certo ascendente sobre Eduardo, ao qual seria de maior proveito se lhes fosse possível conviver.

Depois de alguma espera, Sara mandou anunciar que o jantar se achava na mesa, e foi ela mesma buscar Eduardo, o pai e o tio.

— Que está lendo aí? perguntou ela a Eduardo, entrando na sala.

— Ah! perdão! respondeu este. Foi uma ousadia de que me arrependo; mas este livro aberto por suas mãos, lido por seus olhos, devia ter adquirido uma virtude nova, e eu quis aspirar-lha antes que outro o fizesse. Perdoa-me?

Almeida sorriu-se ouvindo estas palavras de Eduardo; Sara tomou-lhe o livro docemente, tocando com os seus dedos nos dele, e lançando-lhe um olhar da mais franca e pura satisfação; Silvério contentou-se em tomar uma pitada, dizendo:

— E contudo este moço joga bem o xadrez!

A palavra xadrez fez estremecer Eduardo. Era o sinal de um perigo iminente. Todavia, como fino cavalheiro que era, ofereceu o braço a Sara, e seguiu acompanhado de todos para a mesa do jantar.

Até aquela hora um só minuto não pudera falar a sós com Sara. Durante o jantar, era impossível. O jantar foi demorado, mais que de costume. Aproximou-se a noite. Finalmente, levantaram-se todos e foram dar um passeio pelo jardim. Aí, graças à circunstância de dar o braço a Sara, pôde Eduardo falar-lhe mais livremente, apressando ou demorando o passo, conforme as necessidades.

— Soube que tem pensado em mim, disse Eduardo a Sara, caminhando ao longo de uma cerca de roseiras. É verdade?

— Não sei, respondeu a moça.

— Vejo que é uma confirmação.

Quem foi o indiscreto ?

— Foi seu pai, mas é verdade?

— É sim: creio que não faz mal.

— Mal? Oh! nenhum! Fez a minha felicidade.

— Só em pensar?

— Pensar é interessar-se, interessar-se é... sabe o que é?

— Não sei, respondeu Sara corando.

Eduardo queria que a confissão viesse da moça. Esta, para disfarçar a sua perturbação, voltou-se e falou ao pai acerca de algumas necessidades do jardim.

Daí a cinco minutos a conversação entre Eduardo e Sara continuou.

— Sara...

A moça estremeceu ouvindo este modo de falar.

Depois, erguendo os olhos para Eduardo, pareceu dizer-lhe naturalmente: continue!

— Sara, continuou Eduardo, não posso, não quero, não devo ocultar-lhe por mais tempo o sentimento, que a sua beleza me inspirou. Amo-a muito, muito. Desde que eu tive a ventura de salvá-la das ondas, senti que tinha achado o objeto dos meus sonhos. O ideal da minha imaginação. Para ser completamente feliz, basta que o seu coração responda aos sentimentos do meu; basta, para dizer-me desgraçado, a sua recusa ou a sua indiferença. Diga, Sara, ama-me também?

A moça estava embriagada ouvindo esta linguagem. Houve um silêncio em que ela se deleitava com a música das palavras de Eduardo.

Este repetiu a pergunta.

— Sim, respondeu a moça, sim!

As duas mãos se procuraram. Pararam um instante; tinham os olhos embebidos. Assim se passou algum tempo, até que Silvério os foi chamar.

— Então, que é isso? É o jogo do sério?

Os dois voltaram à vida.

Caindo a noite, regressaram todos para a casa. Eduardo ia despedir-se, quando lhe surgiu, armado de um tabuleiro de xadrez, o tio Silvério. Não havia meio de recusar, não já porque o exigisse a delicadeza, mas ainda porque Silvério era dos tais que, em pedindo qualquer coisa, punha a gente num suplício.

Eduardo viu-se obrigado a aceitar a partida de xadrez.

Para a filha de Almeida era isto uma grande felicidade. A conversa do jardim decidira-lhe o coração. O que podia haver de incerto naquela natureza fraca, indecisa, naquele espírito simples e ingênuo, desaparecia diante dos sentimentos que as palavras de Eduardo despertaram. Até então, a moça sentia alguma coisa que a arrastava para aquele homem, mas nem o dizia, nem mesmo interrogava a si própria a razão do novo estado.

Agora, tinha-se-lhe clareado o horizonte. Era amor, que sentia, e amor daqueles que só as almas elevadas são capazes de sentir. O admirável instinto de mulher dera-lhe o resto do que não pudera interpretar das palavras de Eduardo.

Quando Eduardo declarou aceitar a partida de xadrez a moça sentiu que o coração lhe palpitava com mais força. Ela própria foi dispor o necessário para o jogo, não sem levantar muitas vezes os olhos para Eduardo, cujo olhar, pregado nela, exercia uma como fascinação.

(continua...)

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