Por Coelho Neto (1898)
Navegavam. Ia a maruja socegada porque as aguas mal embalavam as naus, tão mansas eram e os ventos apenas refrescavam trazendo ainda o aroma das terras que se haviam abrumado na distancia. No céu, alto e fundo, pallida, a lua seguia com toda a sua população de estrellas e a Via Lactea alastrava como uma renda delicada posta sobre o manto da Noite.
O marinheiro, debruçado á borda da grande nau vellejante, ia com os olhos á flor d'agua que as ardentias aljofravam e pensava nos monstros que dormiam no fundo d'aquelle vasto oceano, recordando o que lhe haviam relatado outros antigos marujos acerca das ilhas mysteriosas que ás naves surgiam, com o seu arvoredo sempre verde e em flor, com os seus alcaçares de torres fulgurantes, d'ouro e de prata, com as suas extensissimas praias de areias rútilas, umas só de homens, de valida estatura, fortes no arremesso dos dardos, destros no manejo das fundas com as quaes, despedindo balas, iam buscar as aguias nos espaços; outras, só de mulheres, incomparavel formosura e de accessivel graça que se banhavam em chusma, nuas com os cabellos derramados, cantando sobre o dorso verde e molle das ondas ou nos parceis perigosos onde ficavam de pé, attrahindo, com seducções, os que cruzavam os mares.
Ainda se o vento levasse a nau a esses sitios bom seria mas, se viessem repiquetes que a desorientassem atirando-a ás rampas agrestes d'esses reinos fabulosos onde, segundo as lendas que corriam de barco em barco, desde o tempo em que sulcavam os mares as galeras phenicias, viviam homens de medonha presença: acephalos ou com as cabeças encravadas nos peitos, ou os parvini, de quatro olhos raiados de sangue ou os cynocephalos, com cabeças de cães e latindo, rondando as praias verdes de sargaço, á espera dos naufragios que lhes dessem, para repasto, corpos de marcantes.
Não fossem as naus arrancadas á derrota pelos rochedos magneticos deixando n'elles toda a ferragem e desfazendo-se desconjuntadas; não se alevantassem basiliscos escamosos do fundo abysmo colhendo os nos seus anneis e estalando-os for- midolosamente. Não lampejasse o olhar lethal do catoblepas...
E, tão abalado e impressionado ia o marinheiro que, ao mais leve embate da vaga no costado da nau, estremecia julgando ser a investida do monstro, mas, o alvor tingia o céu, iam esmaecendo as luminarias da altura e faixas de rosa e de ouro embrechavam o azul mas, na linha baixa do horisonte nuvens, em disposições caprichosas, davam uma visão fantastica aos olhos do vigilante que, n'um extase, vendo o mar esteirado de luz e aquelles minaretes de nacar e aquelles zimborios de ouro e aquelles visos de neve acreditavam estar á vista das raias d'essas ilhas paradisíacas como a de S. Brandão, fundada pelo monge irlandez d’esse nome ou á das Sete cidades que os tripolantes, mais envelhecidos em toldas, juravam ter entrevisto, mais de uma vez, fugindo diante das proas que as demandavam ambiciosamente.
Em todos trabalhavam conjunctamente o mêdo e o interesse—se ouviam o marulho sobresaltavam-se mas logo o terror fugia porque maior era o desejo de alcançarem essas ribas de areias micantes, esses deliciosos lugares de riqueza d’onde o ouro e as pedrarias saíam tão abastosamente como as espigas d’um trigal n'um tempo de messe farta.
Os capitães, com os seus astrolabios, iam fazendo minuciosas observações e o Gama, calado e taciturno, no castello da nau, lançava os olhos pela infinita planicie que os ventos iam encarneirando. Elle tinha o seu roteiro traçado e mais o levava a vontade energica do que os mesmos ventos.
As suas naus alterosas a bem dizer seguiam impellidas pelo seu querer contra o qual nada podiam os sopros impetuosos nem os escarcéos violentos. Ainda que n'elle houvesse grande devoção, tanto que se achegava aos clerigos que iam a bordo ouvindo-lhes as predicas, não só a Deus entregava o seu destino cuidando sensatamente que se não entrasse na empreza com o seu proprio esforço nem tanto faria a Providencia que, por milagre, o levasse favoravelmente ao destino que buscava.
Só nos momentos de concentração e silencio, pedia o auxilio do Senhor mas, nos instantes de manobra, fallava ao timoneiro, animava a maruja e conduzia a faina com o seu exemplo mostrando-se em toda a parte, pondo-se bem aos olhos dos seus homens. E assim navegavam sem accidentes por noites de calma e dias de sol, com ventos affeiçoados sobre bonançoso mar quando, n'um sabbado, o gageiro bradou annunciando — terra e logo a maruja, acudindo em tropel á amurada, avistou ao longe as Canarias que, d'antes, nos tempos das primeiras navegações, eram conhecidas pelo nome bemdizente de Afortunadas.
Seguiram, mas o tempo começou a variar soprando, com furia, os ventos e, n'um crepusculo denso, uma nevoa ferruginea encobrio o sol que ainda luzia caindo uma noite extemporanea e abafada.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.