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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Este senhor não me conhece ainda, encontrei-o na barca e prometi que lhe daria informações a respeito de um casal que fugiu aqui para Niterói.

- A parte feminina desse casal é minha mulher! - disse eu, corando levemente.

- Já sei - respondeu a Francesa.

- Seria um casal que saltou na barca das cinco? — interrogou o encarregado dos negócios da Jeannite. — Um casal muito unidinho, cujo homem trazia debaixo do braço uma caixa de chapéu de senhora?

- É esse justamente! — exclamei com um vislumbre.

- Cale-se! — volveu a Francesa em voz baixa ao meu ouvido. — Eu me encarrego de tudo, descanse!

- Pois esse casal, meu caro senhor — continuou o da agressão -, esse casal seguiu para os lados de São Gonçalo. É só o que lhe posso dizer a respeito.

- Obrigado! — respondi; e fiz menção de sair.

- Olhe! — acrescentou a Francesa — não seja precipitado. Tome o bonde do Barreto e...

Neste ponto ela abaixou a voz disfarçando e concluiu com esta frase: - Às oito horas na Rua do Imperador, nº ***.

- Para quê?

- Aí encontrará todas as informações.

O sujeito que se dizia encarregado de seus negócios, já então apresentando um ar inteiramente oposto ao que tomara no princípio da questão, encaminhou-se humildemente para a recém-chegada e, de chapéu na mão, balbuciou com um sorriso de caixeiro:

- Eu não tive a menor intenção de contrariar-te, Lelé!

- Cale-se! — exclamou ela com desprezo, e em seguida piscou para o meu lado o seu olho esquerdo, e saiu do buffet ainda mais senhora de si do que entrara.

Saí também, mas, para não deixar alguma sombra de suspeita no espírito dos rapazes, tomei direção contrária à da Francesa e cheguei até a sair por uma outra porta.

O tal encarregado dos negócios dela falara-me em São Gonçalo; tinha eu, pois, de meterme no bonde de Sant ‘Ana.

Quando ia a fazer isso, sou detido por um homem de meia-idade, gordo e de óculos, que me disse, falando-me à orelha:

- Não vá a São Gonçalo, seria perder o seu tempo; se quiser ouvir um bom conselho, siga os rastros da Francesa que veio com o senhor na barca. Só ela, só a Jeannite lhe poderá dirigir os passos com segurança. Em todo o caso, se V. Sª. não quiser dar ouvidos às minhas palavras, acredite ao menos que não deve tomar o bonde de Sant’Ana e sim o do Barreto, porque este o aproximará mais facilmente daqueles que procura.

Dizendo isto, o homem recuou dous passos e, escondendo o rosto numa capa riograndense que trazia, desapareceu nas sombras de uma casa em construção que nos ficava ao lado.

Fiquei parado no meio da rua, sem saber que partido tomar. Cada informação das que lograra apanhar, longe de me elucidar o espírito, mais tenebroso mo havia deixado.

Afinal, entre tudo isso, só a Francesa falara claro e decisivamente.

Puxei do relógio, consultei as horas, eram sete.

- Bem! — deliberei. — Às oito estarei na Rua do Imperador nº. ***.

Segui.

Não gastei muito tempo a chegar ao ponto da entrevista e, a dous passos da casa indicada, o mesmo sujeito gordo de há pouco aproximou-se de mim e, levando o indicador aos lábios, fez-me sinal que o acompanhasse.

Tive vontade de hesitar, mas, chegado como estava àquele ponto da intriga, deixei-me levar.

Daí a poucos instantes era eu introduzido numa pequena alcova cor-de-rosa, iluminada por um único bico de gás.

Mal entrei, senti correr um reposteiro que havia por detrás de uma cama e então vi surgir, como num sonho, a misteriosa Francesa.

Ela caminhou para mim, sorrindo, e, logo que me leve ao alcance de suas mãos, passoume os braços em volta do pescoço e exclamou entre beijos:

- És meu!

- Perdão! - disse eu. - Perdão! Agora, tenha paciência, mas não me pertenço a mim mesmo, quanto mais a V.Exª. Não tenho um minuto a perder! Preciso encontrar o amante de minha mulher!

- O Castro Matta? — perguntou a Francesa, sem me largar das unhas.

- Sim! O Castro Matta!

- Descansa! - volveu ela. - O amante de tua mulher está seguro e muito bem seguro! Dei já todas as providências para isso...

- Como assim?

- Lê.

E eu li uma portaria da Policia, declarando que o meu homem fora recolhido ao xadrez na véspera, isto é —no dia 16 do mês de novembro.

- Quê? Pois ele está no xadrez?

- Juro-te que está, e não quero ser quem sou, se daqui a três dias o detrator de tua honra não estiver recolhido à Casa de Detenção.

- Em todo o caso, é preciso que eu vá no seu encalço.

- Não! - exclamou a mulher. — Não sairás daqui, senão amanhã, depois do meio-dia.

- Ora esta! — gaguejei, atirando-me sobre um divã — só me faltava mais isto! Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

Novas Revelações

Quarta Carta

Sr. Redator.

(continua...)

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