Por Aluísio Azevedo (1882)
— Justamente, respondeu o conde. — E o capitão, o pai dessa criança? — É de quem vamos tratar agora...
E o conde, tendo-se levantado, bebido alguns goles d'água e afagado a barba, continuou:
— Leão Vermelho, depois de repudiar a mulher, o que a levou ao desespero da loucura, partiu para as Antilhas espanholas, levando consigo um marinheiro fiel e brioso, que sempre o acompanhara e tinha por ele uma adoração sem limites. Conheci esse valente marinheiro; chamavam-lhe "Tubarão". Depois da viagem às Antilhas, Leão Vermelho meteu-se no Rio de Janeiro, e aí travou relações com uma Henriqueta, com quem pouco mais tarde veio a casar.
— A casar?! Mas então minha mãe havia já morrido?!...
— Ainda não; e essa é a causa da perseguição que sofreu seu pai no Rio de Janeiro e da sua fuga rápida para Buenos Aires. Era bígamo. A segunda mulher ficou aqui no Rio com uma filha por nome Clorinda.
— Clorinda!
— A mesma com quem ontem ia o senhor casar...
— Clorinda, visto isso, é minha irmã?!...
— Perfeitamente, sua irmã.
— E foi por isso que me conduziram para cá?
— Isso foi uma das razões. A outra vai o senhor conhecer agora.
E o conde, depois de uma pausa, acrescentou:
— O senhor tem sem saber uma enorme riqueza à sua disposição.
— Como assim?
— A herança de seu pai.
— De meu pai? Mas, perdão, meu pai morreu há seis anos em Montevidéu, e pobre.
— Foi o que ele fez constar, para não ser perseguido, mas a verdade é que se passou a Portugal com o nome suposto de "João Brasileiro" e apenas há dois meses faleceu.
— Meu pai ainda vivia?
— Sim, eu e minha mulher, somos aqui os únicos senhores desse segredo. Sei de toda a vida de seu pai e acompanhava os seus últimos passos, porque a condessa muito se interessa por tudo o que diz respeito à falecida Cecília, sua mãe. Diga-me, não lhe consta que Clorinda recebesse uma mesada?...
— Pois não, confirmou Gregório; sei que a velha Januária recebia uma pensão misteriosa, da qual ela própria dizia não saber a procedência; como sei igualmente que esse dinheiro era o único recurso que tinham as duas para viver.
— Esse recurso vai desaparecer com a morte de seu pai.
— Pobre Clorinda! Mas eu, se deixo de ser seu marido, principio a ser seu irmão, e...
— Não se trata disso agora. Eu me encarrego de fazer continuar a mesada. Amanhã mesmo remeterei a primeira.
— Mas...
— Não haja escrúpulos! E com o seu dinheiro que vou socorrê-las... Não lhe disse há pouco que o senhor tem uma fortuna à sua disposição?! Pois faça o favor de ler isto...
E passou-lhe um jornal português, indicando-lhe um certo ponto marcado a lápis.
— Será possível?! exclamou o rapaz, lendo as primeiras palavras.
— Leia tudo, disse o conde. E se estiver disposto a aceitar urna proposta, amanhã mesmo partirá comigo para a Europa.
Gregório leu a noticia da morte de seu pai e a confirmação de que este deixara uma grande soma de bens, que seriam recolhidos pelos poderes competentes, até aparecer um filho, existente no Brasil, segundo declarações exatas.
— E sabe o senhor a quanto montam esses bens? perguntou o conde ao rapaz. Excedem a quatrocentos contos fortes!
— Bem, disse Gregório; amanhã mesmo principio a preparar-me. Vou a...
— Nada! contrariou o outro; nada disso! O senhor parte daqui mesmo; eu darei as providências necessárias para que não venha a faltar coisa nenhuma.
— Mas preciso ao menos despedir-me do lugar em que trabalho; reunir os objetos que me possam servir para a viagem e dar a Clorinda uma explicação da minha ausência...
— E justamente o que não convém de forma alguma. Estas coisas decidemse assim!
E o conde calcou o botão da campainha elétrica. Veio o criado.
— Prepara as minhas malas e previne à senhora de que lhe desejo falar ainda esta noite.
O criado curvou a cabeça e saiu.
— Mas eu hei de partir assim sem mais nem menos?... observou Gregório, ao último ponto contrariado.
— E para o seu interesse, meu amigo: a perda de um paquete podia acarretar consigo a da ocasião. Lembre-se do velho provérbio indiano: "A fortuna só tem cabelos na frente da cabeça e é calva na nuca"; se a não agarrarmos de frente, ela se irá por uma vez e nunca mais a pilharemos. O senhor só sairá daqui para bordo!
— Mas os meus interesses, os meus compromissos, que me esperam lá fora?...
— Tudo isso não vale a vigésima parte do tesouro que o reclama com urgência!
— Mas uma coisa não elimina o outra; bem podíamos conciliar as duas e...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.