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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Fui muito feliz! A respeito de gênio, não há outra: dócil, meiga, modesta, incapaz de uma exigência, de uma recriminação! Nunca lhe vi o narizinho torcido, nunca lhe ouvi uma palavra mais áspera, um arremesso, uma impertinência! Sempre aquele mesmo sorriso de bondade, aquele mesmo arzinho de santa! É um anjo! É uma pomba de doçura a minha Filoca! a minha rica Fíloquínha!

E o Borges, sem poder conter os ímpetos da felicidade, andava de um lado para outro, a contar os segundos, dando repetidas palmadinhas na barriga.

A casa tinha dois andares. Estava combinado que, à meia-noite, os noivos fugiriam para o de cima, enquanto no primeiro a festa continuaria, até entrar pela madrugada. Mal os ponteiros do relógio se reuniram nas doze horas, o Borges, impaciente, aproximou-se da esposa e, com a voz trêmula, o olhar suplicante e o hálito em brasa, disse-lhe ao ouvido:

— Podemos fugir... São horas... não acha?...

Ela ergueu os olhos e sorriu; depois levantou-se, deu-lhe o braço, e ambos desapareceram pelos fundos da sala de jantar. A madrinha já estava à espera da noiva, para a cerimonia do despojamento das roupas.

Mas o Borges, quando atravessava a sala contígua à alcova nupcial, ficou muito surpreendido com a mudança brusca, que acabava de se operar na desposada. O tal arzinho de santa fora substituído por uma expressão dura de má vontade. E a surpresa de João Touro aumentou ainda na ocasião em que, tentando segurar Filomena pela cintura para dar-lhe o primeiro beijo, ouviu-lhe dizer com um repelão enérgico: — Deixe-se disso, homem!

E ainda aumentou quando, depois que a madrinha a deixou só no quarto, ele — o noivo — querendo também recolher-se, levou com a porta no nariz, e ouviu ranger um ferrolho que a fechava por dentro.

— Ora esta! resmungou o Borges, sem saber que fizesse...

E bateu, a princípio devagarinho, depois mais forte, mais forte ainda. Só resolveu abandonar o posto, quando Filomena lhe gritou da cama:

— Com efeito! O senhor não tenciona acabar com isso?! Vá dormir, e deixese de imprudências! Se espera que eu lhe abra a porta, perde o seu tempo. Boa noite!

— Bonito! disse o pobre noivo, cruzando os braços.

CAPÍTULO II

O FERROLHO

O Borges passou toda a noite na tal saleta contígua à alcova da mulher, estirado num divã, a ouvir o coaxar insuportável de um velho relógio suspenso na parede, justamente sobre sua cabeça.

Que noite, coitado! Que terrível situação para um pobre homem que, durante os seus calmos quarenta anos, nunca passou uma noite fora de sua cama,. nunca dormiu menos de sete horas, deitando-se invariavelmente às onze e acordando às seis.

Ele! Ele, que nunca entrara numa pândega, passar uma noite inteira enfronhado em calças pretas, camisa bordada e gravata branca!

E o pior é que o infeliz, no cego empenho de parecer agradável aquela noite à esposa, metera-se num banho de perfumes, e sentia por todo o corpo, atabafado na roupa preta, uma comichão desenfreada.

Pobre noivo! Quanto não sofreste essa noite!

O Borges, mesmo no tempo de rapaz, fora o protótipo da ordem, do arranjo e do método. Gostou sempre das coisas no seu lugar — o almoço às tantas, o jantar às tantas, o seu chá com torradas antes de dormir — e nada de se afastar desse regime.

Não podia compreender como houvesse no mundo quem, por gosto, perdesse as horas sagradas do sono, vergado sobre uma banca de jogo, a beber numa taverna, ou a fumar em companhia de mulheres.

Santo homem! uma simples palavra mais decotada era bastante para fazer refluir-lhe às faces o mais pronto e legítimo rubor. Por isso, alguns amigos lhe faziam troça, às vezes; mas, no fundo, todos o respeitavam, todos o amavam. Sabiam já que daquela boca cor de rosa, os dentes imaculados, daquela boca sem vícios, não sairiam a calúnia ou a intriga. Tinham certeza que daquele coração, virgem de paixões, não poderiam brotar o ódio, a inveja e a perversidade.

Conheciam, por longa experiência, a sinceridade daqueles olhos doces e compassivos, que muita vez se umedeceram com as desgraças alheias, e que, aos domingos, nos espetáculos da tarde, iam chorar três horas ao S. Pedro de Alcântara, defronte de um dramalhão de D'Ennery.

Pobre homem! Foi preciso que te casasses para passares mal a tua primeira noite! Tu! que vias no casamento "a última expressão da paz e da estabilidade". Tu! que procuravas no matrimonio "o sossego completo, a dignidade do teu lar e o cumprimento de teus deveres de homem com a sociedade e para com a natureza"!

Oh! como não te devias sentir indignado!

Não estava, porém, no seu gênio o revoltar-se. — Não gostava de contendas — não queria estrear por uma desavença a sua vida de casado.

Além disso, amava-a tanto! --— adorava-a de tal forma, que se sentia perfeitamente incapaz de reagir.

— Não fez aquilo com má intenção! ... pensou ele. — Foi talvez por pudor, coitada! ou, quem sabe? talvez tivesse medo desta minha figura!

(continua...)

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