Por Aluísio Azevedo (1884)
Mme. Brizard assustou-se, o gentleman deu um salto para não sujar as calças; rolou ao chão uma garrafa, e César, o menino sublime, vendo que os mais velhos faziam tanta bulha, também se pôs a berrar.
Coqueiro gritava que se acomodassem por piedade.
— Aquilo não tinha jeito! Parecia haver ali uma súcia de doidos! Oh!
A mucama acudiu da cozinha, e Amélia, com um lenço amarrado na cabeça, apareceu na porta de seu quarto, muito intrigada com o motim. Só o Pereira continuava, inalteravelmente, a comer pedaços de pão; é verdade que abriu os olhos duas vezes. Mas tornou logo a fechá-los e, segundo todas as probabilidades, adormeceu.
Amâncio tratou de aproveitar a confusão para fugir da varanda.
– Que espécie de gente tão esquisita!... dizia ele em caminho do quarto. – Nada! Aqui ainda estou pior do que na casa do Campos!
Antes de chegar ao gabinete, percebeu que alguém o seguia com dificuldade. A sala de visitas estava já totalmente às escuras. Voltou-se, e, sem ter tempo de dizer palavra, sentiu cair sobre ele um corpo gordo e mole.
Era Nini.
Amâncio, surpreso e contrariado, quis arredá-la, mas a histérica passou-lhe os braços em volta do pescoço e desatou a chorar, com o rosto escondido no seu colo.
— Hein?! Disse Amâncio. — Que história é esta?!
Mas lembrou-se logo das recomendações de Mme. Brizard: “qualquer
contrariedade poderia provocar à infeliz rapariga uma crise perigosa!”
— Ora esta!... pensou ele aborrecido. – Ora esta!... e procurou afastar Nini, brandamente. E, como a teimosa não quisesse obedecer e continuasse a chorar, ele disse-lhe palavras amigas, pediu-lhe, quase com ternura, que voltasse à varanda; lembrou que não era prudente ficarem ali, sozinhos e no escuro. — Podiam ser surpreendidos! Esta idéias o aterrava mais pelo ridículo do que pela responsabilidade daquela situação.
Nini, entretanto, parecia não ouvir coisa alguma e continuava a abraça-lo freneticamente, com ímpetos nervosos.
Amâncio perdeu de todo a paciência e arrancou-se violentamente dos braços dela.
— Deixe-me! Gritou, e correu para o quarto.
Nini acompanhou-o chorando, e conseguiu agarrá-lo de novo, pelo paletó. Estava muito nervosa e dispunha agora de uma força extraordinária.
— Isto não será um inferno?!... exclamou o rapaz, puxando a roupa das mãos de Nini. E, vendo que ela não o largava: — Solte-me, com a breca! Ora essa! Que diabo quer a senhora de mim?! Solte-me! Arre!
A enferma não fez caso e apertou-lhe os pulsos; seus dedos pareciam tenazes. Amâncio debatia-se brutalmente, ouvindo-a bufar, muito agoniada, e sentindo-lhe de vez em quando o suor do pescoço e do rosto.
Na sala de jantar serenara a discussão; só a voz do Tavares ainda se destacava. De repente puseram-se todos a chamar por Nini.
— Olhe, disse-lhe Amâncio. — Lá dentro a estão chamando! Vá! Vá!
Ela, nem assim.
— Ora pílulas! Resmungou o estudante, desprendendo-se com um empurrão. E ganhou o quarto, puxando a porta sobre si.
Ouviu-se então o baque surdo do corpo pesado de Nini, que foi por terra; em seguida gritos muito agudos.
Correram todos par a sala de visitas; acenderam-se os candeeiros. Nini escabujava no chão, a gritar, esfrangalhando as roupas e mordendo os punhos.
Coqueiro e Mme. Brizard apoderaram-se logo da infeliz. Amâncio apareceu com o seu frasquinho de vinagre; o Lambertosa receitou uma dose homeopática e correu ao quarto em busca da botica (a homeopatia era uma de suas paixões); Lúcia voltou para a varanda. “Que a desculpassem, mas não podia assistir, a sangue-frio, cenas daquela ordem... Não estava mais em suas mãos!”
* * *
O Pereira já se havia levantado da mesa e ressonava na costumada preguiçosa.
Lúcia, ao passar por ele, atirou-lhe um olhar de tédio e disse consigo:
— Olha que estafermo!... ela às vezes tomava-lhe grande nojo, não o podia ver com aquele ar mole, de mulher grávida, com aquelas pálpebras descaídas, a comerem-lhe os olhos, com aquele sorriso apalermado, aquela voz derramada pelos cantos da boca , que nem um caldo frio e seboso.
De quando em quando sofria de insônias, e, justamente nessas ocasiões, nas horas compridas da noite em claro, é que mais detestava o Pereira. Punha-se a contemplá-lo longamente, com asco, fartando-se de olhar para aquele “pamonha”, aquele “coisa inútil”, que ali, ao seu lado, dormia todo encolhido, com as mãos entre as coxas. Vinham-lhe frenesis de enchê-lo de pescoções. Já lhe não podia suportar o cheiro doentio do corpo; não lhe podia sentir a umidade pegajosa do suor e a morna fedentina do hálito.
A sua ligação àquele mono era uma história muito triste e muito sensaborona. Poucos, bem poucos a sabiam, porque Lúcia se esforçava quanto lhe era possível por escondê-la, como quem esconde uma chaga vergonhosa.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.