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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua possante mula. Envolvia-se o cavaleiro num amplo capote à moda espanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de couro cru, com esporas amarelas afiveladas, e o chapéu derrubado sobre os olhos.

— Ora viva! — disse o passageiro.

— Viva! — respondeu mestre João, relanceando os olhos pelas quatro patas da mula, a ver se tinha obra em que entreter o espírito — A mula é de rópia e chibança!

— Não é má. Vossemecê é que é o senhor João da Cruz?

— Para o servir.

— Venho aqui pagar-lhe uma dívida.

— A mim? O senhor não me deve nada, que eu saiba.

— Não sou eu que devo; é meu pai, e ele que me encarregou de lhe pagar.

— E quem é seu pai?

— Meu pai era um recoveiro de Carção, chamado Bento Machado.

Proferida metade destas palavras, o cavalheiro afastou rapidamente as bandas do capote e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O ferido recuou, exclamando:

— Mataram-me!... Mariana, não te vejo mais!...

O assassino teria dado cinqüenta passos a todo o galope da espantada mula, quando João da Cruz, debruçado sobre o banco, arrancava o último suspiro com a cara posta no chão, donde apontara ao peito do almocreve dez anos antes.

Os caminheiros, que perpassaram pelo cavaleiro inadvertidamente, ajuntaram-se em redor do cadáver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro, e já não ouviu as últimas palavras de seu cunhado. Quis transportá-lo para dentro e correr a chamar cirurgião; mas um cirurgião estava no ajuntamento, e declarou morto o homem.

— Quem o matou? — exclamavam trinta vozes a um tempo.

Nesse mesmo dia vieram justiça de Viseu lavrar auto e devassar: nenhum indício lhes deu o fio do misterioso assassínio. O escrivão dos órfãos inventariou os objetos encontrados, e fechou as portas quando os sinos corriam o derradeiro dobre ao cair da lousa sobre João da Cruz.

Deus terá descontado nos instintos sanguinários do teu temperamento a nobreza de tua alma! Pensando nas incoerências da tua índole, homem que me explicas a providência, assombram-me as caprichosas antíteses que a mão de Deus infunde em alentos na criatura. Dorme o teu sono infinito, se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e pelo uso que fizeste da tua. Mas, se há estância de castigo e de misericórdia, as lágrimas de tua filha terão sido, na presença do Juiz Supremo, os teus merecimentos.

Fez Josefa escrever a Mariana, noticiando-lhe a morte de seu pai, mas sobrescritou a carta a Simão Botelho, para maior segurança. Estava Mariana no quarto do preso, quando a carta lhe foi entregue.

— Não conheço a letra, Mariana... E a obreia é preta...

Mariana examinou o sobrescrito, e empalideceu.

— Eu conheço a letra — disse ela — é do Joaquim da loja. Abra, depressa, senhor Simão... Meu pai morreria?

— Que lembrança! Pois não teve há três dias carta dele?... E não disse que estava bom?

— Isso que tem?... Veja quem assina.

Simão buscou a assinatura, e disse:

— Josefa Maria!... É a tua tia que lhe escreve.

— Leia... leia... Que diz ela? Deixe-me ler a mim...

O preso lia mentalmente, e Mariana instou:

— Leia alto, por quem é, senhor Simão, que estou a tremer... e vossa senhoria descora... Que é, meu Deus?

Simão deixou cair a carta, e sentou-se prostrado de ânimo. Mariana correu a levantar a carta, e ele, tomando-lhe a mão, murmurou:

— Pobre amigo!... Choremo-lo ambos... choremo-lo, Mariana, que o amávamos como filhos...

— Pois morreu? — bradou ela. — Morreu... mataram-no!...

A moça expediu um grito estrídulo, e foi com o rosto contra os ferros das grades. Simão inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura e veemência:

— Mariana, lembre-se que é o meu amparo. Lembre-se de que as últimas palavras de seu pai deviam ser recomendar-lhe o desgraçado que recebe das tuas mãos benfeitoras o pão da vida. Mariana, minha querida irmã, vença a dor, que pode matá-la, e vença-a por amor de mim. Ouve-me, amiga da minha alma?

Mariana exclamou:

— Deixe-me chorar, por caridade!... Ai! meu Deus, se eu torno a endoidecer!

— Que seria de mim! — A quem deixaria Mariana o seu nobre coração para me suavizar este martírio? Quem me levaria ao desterro uma palavra amiga que me animasse a crer em Deus? Não há de enlouquecer, Mariana, porque eu sei que me estima, que me ama, e que afrontará com coragem a maior desgraça que ainda pode sugerir-me o inferno! Chore, minha irmã, chore: mas veja-me através das suas lágrimas!

CAPÍTULO XVIII

(continua...)

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