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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

São todos assim e os varejistas ou, como chama o povo, taverneiros, têm que atendê-los de hora em hora. Já lhes deram um nome muito engraçado; são os tocadores de realejo.

Não há mais essa espécie de necessitados; mas ficaram os caixeiros vendedores para substitui-los e atribular os varejistas, os vendeiros, que, às vezes, são a providência de muita gente pobre.

Entretanto, não são eles só perseguidos por esses rapazes vendedores. Há um flagelo maior; são os almofadinhas do comissariado. Conhecidos são eles por afinadores de piano.

Merecem muito esse apelido, mesmo não trazendo o diapasão.

Para eles não há necessidade disso. Basta para a sua economia política a tabela do comissariado e por parte dos afinadores do comissariado e as ordens do Vieira Souto.

Um pobre taverneiro sofre de ambos lados, isto é, por parte dos afinadores do comissariado e por parte dos tocadores de realejo. Eis aí a fortuna de um taverneiro. Careta, Rio, 27-9-1919.

UMA PARTIDA DE FOOTBALL

Das coisas elegantes que as elegâncias cariocas podem fornecer ao observador imparcial, não há nenhuma tão interessante como uma partida de football.

É um espetáculo da maior delicadeza em que a alta e a baixa sociedade cariocas revelam a sua cultura e educação.

Num círculo romano, com imperadores, retiários , vestais e outros sacerdotes e sacerdotisas, não se poderiam presenciar aspectos tão interessantes, coisas tão inéditas como nas nossas arenas de jogo do pontapés na bola.

Os gladiadores eram raramente homens de grande beleza física e muito menos intelectual; os nossos jogadores de football, porém, são excelentes modelos, em que o crânio alongado e pontiagudo dá um remate de beleza aos seus membros inferiores que muito lembram certos ancestrais do homem.

O senhor Coelho Neto , a quem muito admiro, já fez a apologia desses apolos, com a força de sua erudição em coisas gregas.

Não há, portanto, nos nossos hábitos, fato mais agradável do que assistir uma partida de bolapé.

As senhoras que assistem, merecem então todo o nosso respeito.

Elas se entusiasmam de tal modo que esquecem todas as conveniências.

São as chamadas “torcedoras” e o que é mais apreciável nelas, é o vocabulário.

Rico no calão, veemente e colorido, o seu fraseado só pede meças ao dos humildes carroceiros do cais do porto.

Poderia dar alguns exemplos, mas tinha que os dar em sânscrito.

Em português ou mesmo em latim, eles desafiariam a honestidade: e é, por um, que me abstenho de toda e qualquer citação elucidativa.

O que há, porém, de mais interessante nessas festanças esportivas, é o final.

Sendo um divertimento ou passatempo, elas acabam sempre em rolo e barulho.

Por tal preço, não vale a pena a gente divertir-se.

É o que me parece.

Careta, Rio, 4-10-1919.

AS VAPOROSAS

Ultimamente, com a criação de seções elegantes nos jornais, aparecem todos os meses novos qualificativos para nossas elegantes.

Já tivemos as “encantadoras “, já tivemos as “melindrosas”, agora temos as “vaporosas”.

Não acho mal nenhum nisso, porquanto a língua se enriquece e todos nós nos divertimos com esse enriquecimento transitório.

O que acho, porém, é que, às vezes, os termos são impróprios.

Encantadora, vá lá! Mas “melindrosa” para qualificar uma moça que não teme os perigos do cinema e os “leões” das esquinas...

Julgo que essas moças não são nada “melindrosas”, elas são corajosas e ousadas.

Por exemplo, eu, que sou homem e muito pouco “melindroso”, não teria a coragem que elas têm. Contudo...

Agora inventaram as “vaporosas”. São as mesmas “melindrosas’ que se rejuvenesceram com um nome novo.

É bom que isso aconteça, porquanto não é agradável que uma mulher envelheça. Tudo que for possível para evitar tão lamentável fato, é bom, seja carmim, pó de arroz ou com um novo qualificativo.

Só tinha a objetar em a impropriedade da nova designação.

“Vaporosas” parece querer dizer que essas moças estão desprendendo vapor.

Acho aí um pouco de indelicadeza.

Uma moça deve ser sempre uma coisa útil; e o vapor só é útil quando está sob pressão.

Era só a crítica que eu tinha a fazer a essa novíssima designação para as elegantes da Avenida e Rua do Ouvidor.

Se é pelo vestuário, seria muito melhor que fossem elas chamadas –

“transparentes”.

Careta, Rio, 4-10-1919.

CUIDADO!!

O conflito público e jornalístico entre os deputados Natalício Cambuim e Andrade Bezerra tem sido muito comentado e gozado.

Não conheço nenhum dos dois, mas aprecio muito o senhor Bezerra.

Leio desde sempre os seus estirados artigos no Correio da Manhã, para estudar neles a sociologia católica.

(continua...)

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