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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Pedro Ruivo ganhou a primeira viela da Cidade Nova, meteu-se no primeiro bonde que passou, e seguiu para o Rio Comprido. Só parou defronte da antiga estalagem da Avenida Estrela. Ele aí não conhecia ninguém, mas o aspecto do lugar pareceu-lhe magnífico para um segredo. Entrou.

A Avenida Estrela é uma velha chácara situada ao sopé de umas montanhas que ficam à esquerda de quem sobe o Rio Comprido. Há na entrada um grande portão de ferro, talhado entre um extenso gradeamento, onde de espaço a espaço avultam colunas de pedra e cal, quadradas e encimadas por uma espécie de tulipa aberta para o céu. Algumas dessas colunas despiram já a camisa de estuque e mostravam a cor da pedra e a cor do barro; em outras se nota a ausência do capitel e das cimalhas.

Mas quem entra na Avenida Estrela esquece-se de tudo isso, arrebatado pela exuberante vegetação que a cerca. De todos os lados a mesma pujança e a mesma opulência da natureza! Os montes afogam-se em um oceano de verdura; as árvores amontoam-se desde longe, acumuladas umas sobre outras, formando matizes admiráveis e pianos que se vão amortecendo, à proporção que se afastam de nossos olhos, até se confundirem com o violeta das longínquas serras, lá no extremo do horizonte, por entre os vapores do céu.

Principia a chácara por um renque de palmeiras, que parecem brotar dos maciços cercilhados da murta e das compactas moitas de margaridas. Esses maciços formam pequenas ruas, que se entranham pela chácara e vão dar aos tabuleiros de hortaliça e às valas de agrião. Depois é que surge a velha escadaria de pedra rajada, e afinal o casarão antigo, misterioso e triste como um medieval castelo abandonado.

Pedro Ruivo enveredou-se por uma daquelas ruas e caminhou à toa por entre a verdura. Quando se julgou em lugar seguro, pousou no chão o cofre e principiou a contemplá-lo, assentado ao seu lado.

— Que estaria ali dentro?... papéis sem dúvida! mas papéis que valiam pelo menos um conto de réis para o comendador Portela!...

E Pedro Ruivo, sem conseguir domar a fantasia, principiou a fazer soberbos castelos de fortuna, entre os quais se sonhava nadando em muito dinheiro. Era impossível que ali só estivessem os tais documentos que sobressaltavam o comendador! Com certeza havia muito mais! muito mais! O cofre não era tão pequeno!... O pior porém é que o Ruivo não o conseguia abrir: as quatro faces lisas daquela estranha caixa não apresentavam o menor sinal de fechadura, não davam o menor indício por onde devia ser ela aberta; eram quatro lâminas de aço, formando um perfeito paralelepípedo. Havia ali com certeza algum segredo sutil, alguma mola, com o qual o gatuno não atinava. E o Ruivo possuído inteiramente pela sua presa, olhava-a por todos os lados e experimentava-lhe todos os cantos, sem conseguir descobrir coisa alguma.

A noite formou-se de todo. Uma bela noite luminosa, cheia de estrelas, Pedro Ruivo continuava a tatear o cofre, quando de repente sentiu fugir-lhe debaixo dos dedos a extremidade do ângulo de uma das lâminas.

— Ah! exclamou ele sem poder conter a alegria.

Estava tudo descoberto! Tudo, até o próprio Ruivo, porque o seu grito chamara a atenção do estalajadeiro, Papá Falconnet, que naquela ocasião passeava pela chácara a refazer-se com o fresco da noite.

Papá Falconnet era um alegre velho francês de setenta e tantos anos, porém ainda muito senhor de todas as suas faculdades físicas e intelectuais. Homem de pouca estatura, grosso de ombros, pulsos rijos, cabeça perfeitamente coberta de cabelos grisalhos, curtos e crespos, bigode e barba à Cavaignac, olhos vivos, pescoço reforçado e dentes ainda vigorosos. Tinha certa vaidade do seu vigor. "Pois olhem que não foi porque não aproveitasse eu bem a minha mocidade!" exclamava ele a quem lhe elogiava os seus belos setenta e dois anos. E afiançava sempre que, antes de engolir os trinta e tantos que tinha no Rio de Janeiro, já havia gramado vinte em Paris, dez na Bélgica e outros dez em Bordeaux; e que durante todo esse período, só duas coisas conhecera que verdadeiramente o deixaram assombrado: Era Napoleão Bonaporte e a portentosa natureza do Brasil.

Falconnet, nascendo com o século palpitara na sua mocidade sob a impressão dos dramas napoleônicos e nunca mais pudera fugir à romântica influência desse tempo. Ainda agora, quando alguém lhe falava de Austerlitz, de Marengo, Ratisbonne ou de outra qualquer vitória do feliz capitão, os olhos enchiamse-lhe de entusiasmo; erguia a cabeça e, com um braço no ar, principiava ele a cantar a Marselhesa.

Os hóspedes tratavam-no todos com liberdade amiga; batiam-lhe no ombro e perguntavam-lhe: "como iam os seus amores". Falconnet ria, fingia zangar-se, ralhava, mas daí a pouco se metia de troça com os rapazes e não se lembrava mais de que tinha o triplo da idade de cada um deles.

Pois foi esse homem de setenta e tantos anos quem descobriu Pedro Ruivo escondido por entre as árvores da alameda.

— Que faz você aí?! perguntou ele, aproximando-se.

— Estou a descansar, patrão... disse o gatuno, procurando esconder o cofre.

(continua...)

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