Por Aluísio Azevedo (1884)
— Tomo a liberdade de apresentar-lhe meu marido, disse Filomena, mostrando-o ao duque.
O selvagem monologou alguns sons guturais e sem sentido e encarou a visita, franzindo as sobrancelhas.
— Ainda não conseguiu familiarizar-se com as línguas estranhas, explicou Filomena.
E percebendo no duque um gesto de contrariedade:
— Pode conversar à vontade em português; Bu-ru-cu-lu-lu não entenderá uma palavra do que ouvir. Só eu posso fazer-me compreender por ele, graças ao pouco que sei do tupi.
— Mas como foi a senhora, tão bonita e tão delicada, descobrir esse monstro para seu marido?... quis saber o fidalgo.
— Devo-lhe a vida!... respondeu Filomena. — Se não fosse esse bravo indígena, teria sido devorada pelos seus compatriotas numa lamentável excursão que fiz ao Alto Amazonas...
— Ah! E sabe o que o levou a salvá-la?
— O amor, creio eu. Este pobre monstro viu-me de longe entre os seus companheiros, correu-me aos pés, ajoelhou-se, em seguida tomou a minha defesa, matou os que me queriam fazer mal, carregou comigo para um lugar seguro, e desde este instante me segue como um cão. É de supor que me tomasse por alguma divindade!... Pelo menos, assim me leva a crer o respeito religioso que ele me tributa!
— Ah!
— De resto, não tem absoluta consciência do que faz — é uma espécie de bicho! Não sabe a razão por que aparece em público; não compreende nada do que o cerca. Uma ocasião, perguntei-lhe, por curiosidade, que efeito lhe produzia Paris, e, pela resposta que deu, concluí que o tolo se supõe numa existência de além túmulo, julga-se no paraíso de sua religião.
— Como assim? perguntou o duque intrigado.
Filomena apressou-se a explicar:
— É que, na ocasião de defender-me de seus companheiros, Bu-ru-cu-lu-lu ficou muito ferido e, ao chegar a Manaus, acometeram-lhe febres tão fortes, que o fizeram delirar três dias consecutivos. Pois bem, o toleirão imagina que sucumbiu à moléstia e que voou logo às mansões siderais, onde eu represento para ele a veneranda encarnação do poder altíssimo e da suprema divindade!
— De sorte que ele se julga já falecido?... perguntou o duque com interesse.
— Em plena bem-aventurança eterna. Julga-se como alma do outro mundo. Paris, que é o édem terrestre dos estrangeiros, para ele, coitado! é nada menos que o paraíso celeste!
— É singular!
— Singular e extremamente cômodo para mim, prosseguiu a brasileira, gozando do efeito que as suas palavras produziam na visita. — Imagine o Sr. Duque que o fato de meu marido se julgar morto faz que ele me tenha comigo a menor exigência e se submeta humildemente ao que eu lhe ordene. Entretanto, é o meu guarda, é a minha defesa: quando o sinto ao meu lado, não tenho que recear qualquer agressão, venha ela de um leão das salas ou de um leão das florestas!
— É muito singular! repisou o duque, reconsiderando com um ar de pasmo a grossa e taciturna figura do Borges, acocorado ao canto da sala. Sim, senhora! Está garantida!
— Ah! perfeitamente garantida! Já vê o Sr. Duque que eu não poderia encontrar melhor marido em parte alguma do mundo!
— Ele então não consente que lhe toquem sequer com o — dedo?...
perguntou o louro, fazendo um ar de desgosto.
Experimente! disse Filomena, faça que me vai prender o braço.
O duque estendeu a sua mão calçada de luva da Escócia e fingiu que ia tocar no carnudo braço da artista.
O Borges ergueu-se logo e, movendo lentamente a cabeça para os lados, com movimentos de urso velho, principiou a rondar em torno dos dois, farejando.
— E se eu me arriscasse a dar-lhe um abraço?... perguntou o duque.
— Deus o defenda! Nem é bom pensar nisso! Bu-ru-cu-lu-lu seria capaz de estrangulá-lo no mesmo instante! Não queira experimentar, que eu não respondo pelas conseqüências.
— E não havia meio de estar um momento em sua companhia sem a presença desta alimaria?!
— Pode haver, mas é muito arriscado! Ele tem um faro mais sutil que o de qualquer cão de caça!... Iria descobrir-me no inferno, se no inferno eu me escondesse!
— E por que não se desfaz a senhora de semelhante bruto?! No fim de contas, deve ser aborrecido suportar eternamente este orangotango.
— Se lhe estou dizendo, Sr. Duque, que o demônio do bicho tem faro!
— Era fazer presente dele ao museu zootécnico de França, em nome do Imperador de seu país, que é um sábio. E com isso a senhora ainda prestaria um relevante serviço à biologia. Se quiser eu encarrego-me de o remeter à comissão que recebe os donativos.
— Não! disse Filomena, por ora não. Mais tarde pode ser que aceite o seu oferecimento.
— Pois, quando quiser, estou às suas ordens, acrescentou a ilustre visita, erguendo-se e tomando a mão de Filomena para depor um beijo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.