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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Era letra de mulher, de Hortênsia sem dúvida. Estava ali a sua alma, o fogo de seus olhos. Ele cheirou o pequeno pedaço de papel, e pensou sentir o mesmo perfume que, na véspera, durante a valsa, o tinha penetrado até à medula.

Achavam-se presentes o Dr. Tavares, o Pereira, o gentleman e Lúcia. Disseram alguma coisa sobre aquelas flores, menos a última, que, junto à janela, parecia preocupada com um livro da capa roxa. O gentleman falou de Botânica a propósito de uma dália vermelha que havia no ramo. Afiançou que esta flor possuía em si tantas outras flores quantas eram as pétalas de que constava.

— Flores perfeitas, com todos os órgãos, Sr. Amâncio — estames, cálice, tudo!

Amâncio, enquanto o Lambertosa discorria sobre a dália, leu ainda uma vez o cartão, e, ao levantara vista, reparou que Nini o fixava, cada vez mais insistente.

Amélia dera-se por incomodada e não vira à mesa.

O jantar correu, pois, muito frio e constrangido ao princípio; pouco se conversava e quase ninguém tinha vontade de rir. Dir-se-ia que só Amâncio a todos comunicava o seu fastio e o seu cansaço.

Só pela sobremesa o Dr. Tavares narrou, como de costume, algumas anedotas jurídicas que presenciara na província. Uma delas tinha referência a ma certa velha que fora aos tribunais por haver desancado as costelas do genro.

Mme. Brizard tomou a defesa das sogras, e aproveitou a ocasião para falar no marido de sua filha mais velha.

Vai muito da educação e também um pouco do costume em que a gente os põe!...acrescentou ela autoritariamente. — Mas, genro, não queria que houvesse outro como o defunto marido de Nini.. — Era um perfeito cavalheiro! Mme. Brizard nunca lhe vira a cara fechada, nem lhe surpreendera um gesto mais arrevesado. Ele só a chamava, a ela, de “mãezinha”; sempre lhe trazia guloseimas da rua, e, aos domingos, pela manhã, dava-lhe um beijo na testa , impreterivelmente! — Ah! Era uma santa criatura!

Nini suspirou e pôs-se a chorar em silêncio.

— Agora temos choro!...pensou Amâncio com tédio.

Nini, como se adivinhara tal pensamento, olhou para ele e pediu perdão com um sorriso, ainda mais triste que o choro.

— Eu sou aqui da opinião do Ser. Amâncio de Vasconcelos...disse o gentleman a Mme. Brizard, em tom discreto.

Mme. Brizard não sabia, porém, do que tratava o Lambertosa.

— Ah! volveu este. — Refiro-me ao que avançou anteontem o nosso ilustre companheiro, e indicou Amâncio com um gesto, que avançou a respeito da vantagem que um novo casamento traria, sem dúvida ,à senhora sua filha.

— Ah! fez Mme. Brizard já não me lembrava disso. O Sr.... — Lambertosa, minha senhora, Lambertosa...

O Sr. Lambertosa é então de opinião que o casamento convém às enfermidades nervosas?...

O gentleman concentrou a fisionomia, limpou o bigode ao guardanapo, ergueu uma faca, e principiou a emitir o seu judicioso e meditado parecer.

Surgiram logo as contendas. Lúcia marcou a página do livro de capa roxa e olhou muito séria para os outros, pronta a dar a sua réplica. Mme. Brizard, enquanto os mais discutiam, tamborilava com os dedos sobre a mesa, afitar um queijo de Minas, com um gesto profundo e repassado de filosofismo. O Pereira comia consecutivos pedaços de pão, sem abrir os olhos, e Amâncio procurava uma evasiva para se escafeder.

Afinal, o Coqueiro, que havia já formado um grupo à parte com o Dr. Tavares, quis fechar a discussão; mas o advogado ergueu-se de súbito, segurou as costas da cadeira, arregalou os olhos, e desencadeou a sua eloqüência .

Em pouco, só ele falava, esquecido, como de costume, do lugar e da situação. Imaginava-se já num tribunal, em pleno exercício de suas funções.

Pintou floreadamente o lamentável estado de Nini. Qualificou-a de “vítima inocente dos impenetráveis caprichos de Deus”; descreveu a dolorosa expressão do semblante da “’infeliz moça”; disse que os olhos dela falavam a misteriosa linguagem do amor, e, quando se dispunha a dar afinal a sua esperada opinião sobre o casamento, a pobre enferma, muito vendida com o que vociferava o tagarela a seu respeito, abriu a soluçar estrepitosamente.

A francesa ergueu-se, de mau humor, para pedir ao Dr. Tavares que se deixasse daquilo, “por amor de Deus!” Doutro lado o Coqueiro também lhe suplicava que se calasse.

Mas o demônio do homem já se não podia conter. As palavras borbotavamlhe da língua, como o sangue de uma facada. Fez imagens poéticas sobre o casamento , citou nomes históricos, e jurou, à fé de suas convicções,, “que aquela desventurada criatura precisava de um esposo, mais do que as flores carecem do orvalho, mais do que as aves carecem do ar; mais do que os cérebros carecem de luz!”

E, erguendo as mãos trêmulas, recuou dos passos e foi dar de encontro ao copeiro que, por detrás dele, embasbacado, o escutava atentamente, com a bandeja do café nos braços, à espera de uma ocasião para apresentar as xícaras.

(continua...)

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