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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Pois o médico não morreu, nem sequer desmedrou, ou levou R significativo de preocupação do ânimo, insensível às amenidades da terapêutica.

A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinária que seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma carta do doutor Domingos Botelho. Um período desta carta dizia assim:

"Deste-me a noticia duma filha que eu não conhecia, nem conheço. A mãe desta senhora está no Faial, para onde ela vai. Cuida tu, ou manda cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali alguém de correr com a passagem dela para os Açores no primeiro navio. A mim me darás conta das despesas. Meu filho Manuel teve ao menos a virtude de não matar ninguém para se constituir amante. Do modo como correm os tempos, muito virtuoso é o rapaz que não mata o marido da mulher que ama. Vê se consegues do general, que está ai, perdão para o rapaz, que é desertor da cavalaria seis, e me consta que está escondido em casa dum parente. Enquanto a Simão, creio que não é possível salvá-lo do degredo temporário... É uma lança em África livrá-lo da forca. Em Lisboa movem-se grandes potências contra o desgraçado, e eu estou mal visto do intendente geral por abandonar o lugar... etc.".

Partiu para Lisboa a açoreana, e dali para a sua terra, e para o abrigo de sua mãe, que a julgara morta, e lhe deu anos de vida, se não ditosa, sossegada e desiludida de quimeras.

Manuel Botelho, obtido o perdão pela preponderância do corregedor do crime, mudou de regimento para Lisboa, e ai permaneceu até que, falecido seu pai, pediu a baixa e voltou à província.

CAPÍTULO XVII

João da Cruz, no dia 4 de agosto de 1805, sentou-se à mesa com triste aspecto e nenhum apetite do almoço.

— Não comes, João? — disse-lhe a cunhada.

— Não passa daqui o bocado — respondeu ele, pondo o dedo nos gorgomilos.

— Que tens tu?

— Tenho saudades da rapariga... Dava agora tudo quando tenho para a ver aqui ao pé de mim, com aqueles olhos que pareciam ir direito aos desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraças da minha vida, que ma fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para sempre!... Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não vinha a ficar em obrigação ao corregedor, e não se me dava que o filho vivesse ou morresse...

— Mas, se tens saudades — atalhou a senhora Josefa — manda buscar a rapariga, tem-na cá algum tempo, e torna depois para onde ao senhor Simão.

— Isso não é de homem que põe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ela lhe falta, morre de pasmo dentro daqueles ferros. Isto é veneta que me deu hoje...

Sabes que mais? Leve a breca o dinheiro! Amanhã vou ao Porto.

— Pois isso é o que deves fazer.

— Está dito. Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anéis e fiquem os dedos. Por ora, tem-se resistido a tudo com o meu braço. A rapariga, se ficar com menos, lá se avenha. Assim o quer, assim o tenha.

Reanimou-se a fisionomia do mestre ferrador, e como que os empeços da garganta se iam removendo à medida que planizava a sua ida ao Porto.

Acabara de almoçar, e ficara cismático, encostado à mesa do escano.

— Ainda estás malucando?! — tornou Josefa.

— Parece coisa do demônio, mulher!... A rapariga estará doente ou morta?

— Anjo bento da Santíssima Trindade! — exclamou a cunhada, erguendo as mãos — que dizes tu, João?

— Estou cá por dentro negro como aquela sertã!

— Isso é flato, homem! Vai tomar ar; trabalha um poucochinho para espaireceres.

João da Cruz passou ao coberto onde tinha o armário da ferragem e a bigorna, e começou a atarracar cravos.

Alguns conhecidos tinham passados, palavreando com ele consoante costumavam, e achavam-no taciturno e nada para graças.

— Que tens tu, João? — dizia um.

— Não tenho nada. Vai à tua vida e deixa-me, que não estou para lérias.

Outro parava e dizia:

— Guarde-o Deus, senhor João.

— E a vossemecê também. Que novidade há?

— Não sei nada.

— Pois então vá com Nossa Senhora, que eu estou cá de candeias às avessas.

O ferrador largava o martelo; sentava-se aos poucos no tronco, e coçava a cabeça com frenesi. Depois recomeçava novamente, e tão alheado o fazia, que estragava o cravo, ou martelava os dedos.

— Isto é coisa do diabo! — exclamou ele; e foi à cozinha procurar a pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixões etéreas se aturde com absinto. — Hei de afogar-te, coisa má, que me estás apertando a alma! — continuou o ferrador, sacudindo os braços, e batendo o pé no soalho.

(continua...)

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