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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Não quero citar fatos, mas o senhor doutor Veiga Miranda quis desafiar-me e mencionou o caso que se passou com um irmão de uma grande pessoa que chegou a ser até presidente da república. Foi a tal nobreza rural que desmoralizou a gente rural...

A questão da aniagem é uma das burrices da república que eu odeio. Eles, os legisladores republicanos, criaram o protecionismo imbecilmente ou por desonestidade. Não sabiam com o que jogavam. Agora apelam para os interesses da nobreza rural (exAlfredo Ellis e o Zé Bezerra) que tem explorado os negros, os portugueses e italianos, para se enriquecerem.

Os industriais, muito inteligentemente, caíram em cima deles e fizeram pagar as extorsões de tais lavradores que não sabem plantar, a toda uma população que o meu amigo Monteiro Lobato chama de jecas-tatus e fenece por aí.

À semelhante gente que quer criar até a tolice da Ordem dos Advogados, na minha despedida da vida, eu só posso dizer como o meu preto velho que me criou e eu o amei e ele me amou, Manuel de Oliveira: “eles que são brancos, que lá se entendam”.

A.B.C., Rio, 27-9-1919

OS CORRESPONDENTES

O curioso dessas coisas todas é que ninguém quer ficar com os sentimentos ocultos. Eles se lembram de manifestá-los, desta ou daquela forma, aqui ou acolá.

Se a tua dor te incomoda, faze dela um poema, mas o que se não pode entender é que certos sujeitos não podendo fazer dela um poema, venham pedir que se revele pelas colunas dos jornais o espetáculo de suas mágoas e amores.

Tudo isto é respeitável e digno; mas o que não é digno é revelar semelhantes coisas.

Não há dia que não recebamos cartas de amorosos declarando os seus sentimentos à sua amada: não há dia que não encontremos no nosso correio denúncias de despeitados contra as suas prováveis apaixonadas. Tudo isto é absolutamente idiota e não é de nossa competência. Estamos aqui para fazer troça, pilheriar contra a humanidade; mas não para atravancá-la com perseguições e maldades.

Imaginem os senhores se fossemos publicar com o nome a bobagem que ai vai.

Nós fazemos para regalo dos nossos leitores, mas pedimos que semelhantes missivistas não repitam a pilhéria de nos incomodar com semelhantes tolices.

Eis aí a carta:

“Ilustríssimo senhor redator da Careta.

Com máximo respeito, solicito um abrigo a este escrito na página literária do vosso jornal, de antemão agradeço, a vossa gentileza.

À F...

Através das blandícias e amplexos dos que te admiram, passas feliz o teu aniversário! No entanto, eu, sorvendo a poção de tantos sofrimentos, assisto passar como que uma caravana, tudo, quanto senti, neste amor agora indelével! Esperanças, não mais me alegram a face merencória! Caminho esta trilha que se chama vida, prestes, a encontrar talvez, o recanto escuro, onde, o corpo se exila do mundo e a tal terra de ilusões, não volta mais! nunca mais! Perdoa-me, a liberdade de te dirigir estas linhas. Antes porém, de dar termo a este conjunto medíocre, prosternado, recitarei, por esta data faustosa, uma prece a Deus, para que sejam marchetados de rara felicidade, os dias, que te restam na vida, acobertados, com o manto sublime da virtude e da Glória! São estes, os sinceros votos, que te não esquece de desejar, o teu admirador humilde

J. G. Júnior”

Foi este senhor Gonçalves que nos enviou esta carta, sobre a qual escrevemos os comentários que aí vão.

Careta, Rio, 27-9-1919.

ATRIBULAÇÕES DE UM VENDEIRO

Não há coisa mais interessante de que observar uma venda.

Toda a gente tem mais ou menos escrúpulo em entrar em uma delas. Já o tive também; mas, agora, é um prazer e meu agrado.

Aposentado e satisfeito da vida, logo, nas primeiras horas, a minha satisfação é visitá-las na minha redondeza.

Não me arrependo com isso, porquanto muito observo e adivinho.

Tem meu amigo, o senhor Carlos Ventura, um excelente camarada e discípulo – o Alípio.

Prego-lhe todas as doutrinas subversivas que me vêm à cabeça; e ele me ouve e medita.

Estou emprazado até para ser servente de pedreiro, desde que ele seja chefe da empreitada.

O que quero é que ele me dê o atestado de que eu fui de alguma forma trabalhador manual.

Entretanto, a coisa que mais curiosidade me provoca, é a atitude dos vendedores das casas chamadas atacadistas.

São em geral rapazes finos, limpos e agradáveis. Chegam, sempre com um jornal, mesureiros e delicados e dizem:

– “Seu” Ventura, cá estou! Tenho um arroz finíssimo, Iguape. O senhor quer?

O Senhor Ventura diz que não quer e o homem insiste. Daqui a instantes, lá vem outro, também fino, delicado e elegante:

– “Seu” Ventura, eu me lembro do senhor.

– Porque?

– A razão é simples. Tenho uma banha com pouca água.

(continua...)

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