Por Aluísio Azevedo (1884)
A mulher conservaria as suas roupas indígenas, mas não havia de pintar mais o rosto, nem esconderia o nome, seria limpa e claramente: "Filomena Borges — A Brasileira".
O Urso é que ficara de melhor partido — ia deixar a cena e recolher-se à sua primitiva e sossegada posição de animal doméstico. Já não era sem tempo, coitado!
O pobre cão estava velho e sentia fugirem-lhe progressivamente as faculdades. Estrearam no Cirque d'hiver.
Que sucesso! Os parisienses cansados de boa música e fartos de artistas célebres; os parisienses desiludidos, esgotados, blasés, ainda tiveram fibra para um arrepio novo, quando ouviram os chorados da Bahia e as modinhas do Pará, gemidos em português por aquela deliciosa filha dos trópicos, que não precisava de espartilhos e peitos de borracha para dizer na linguagem clássica e singela das curvas carnais toda a velha sensualidade paradisíaca.
O Borges, na sua humilde qualidade de botocudo, não tinha mais que afetar grande selvageria e deixar-se expor com os seus botoques nos beiços e nas orelhas, como um bicho perigoso e raro. Foi esse o meio único que descobriu o pobre homem para não se fatigar em extremo, pois várias vezes teve de sair de seu sossego e ameaçar com as suas flechas de ubá e com os seus guinchos atroadores os gommeux embeiçados pela mulher.
Ingleses silenciosos e tradicionais excêntricos, russos viajantes, príncipes de várias partes do mundo, vinham Cirque d'hiver atirar o coração e a bolsa aos pés da formosa brasileira. Filomena, porém, não era mulher que sucumbisse a tais seduções e, já com a tática que apanhara nos teatros, já com os conselhos que em pequena recebera de D. Clementina, sabia pilhar de seus adoradores tudo que entendesse sem lhes dar em troca mais que os seus famosos olhares de ternura e os seus belos sorrisos de esperança. Só nas ocasiões supremas é que o terrível botocudo se mostrava, armado, de tamearana, uirapuru e esgaravatana, e, tal gritaria e tais ameaças punha em jogo, que ninguém levaria a sua intrepidez a ponto de avançar.
Não obstante, ele às vezes ficava sobressaltado e receoso.
— Não acho muito prudente que te exponhas deste modo, meu amor! dizia em segredo à mulher — podes vir a cair em algum laço... Conhecemos muito pouco esta cidade, e os parisienses, minha vida, gozam a esse respeito de uma fama terrível!... Quanto a mim, acho que o melhor seria deixarmos por uma vez esta maldita vida de teatro e irmos descansai a um canto sossegado e feliz da nossa terra!... O que já possuímos, com alguma economia, chegar-nos-á perfeitamente para o resto da existência, e, confesso-te, minha santa, desde que me casei, não faço outra coisa senão suspirar por um momentozinho de repouso!...
Filomena sorriu.
— Ora, queira Deus que te não venhas a arrepender!... acrescentou o Borges. Tenho pressentimentos horríveis com esta cidade infernal!
— Descansa, meu bom amigo, respondeu a esposa. São de todo infundados os teus receios! Descansa, eu sei o que faço; não me há de suceder coisa alguma!
— Hum, hum!... resmungou o botocudo, sacudindo a cabeça. Não sei que te diga!... Olha, esse tal duque louro, por exemplo, esse que te mandou ontem aquele diamante negro, não me passa da garganta! É de todos o que mais me incomoda!
Não sei que diabo acho na cara de semelhante homem!
Nesta noite, já no teatro, quando ela se preparava para entrar em cena e o marido metia no pescoço o seu barulhento aiucará. feito de búzios e dentes de animais ferozes, foram surpreendidos por uma voz que, da porta do camarim, dizia no melhor português:
— É permitido cumprimentar a formosa brasileira?...
— Pois não! respondeu esta, ordenando à criada que fizesse entrar a visita na pequena sala próxima.
E, quando apareceu, já pronta: — Oh! o duque!... Não sabia que V. Ex.
falava português, e com tanta perfeição!
— Pois se eu sou português...
Ah! fez ela, considerando o tipo louro que tinha diante de si.
Dir-se-ia um alemão. Era baixo e gordo, vermelho, bigode e barba à Cavaignac, cabelos de um amarelo frio e seco.
— Não falemos nisso, interrompeu ele — tratemos de outra qualquer coisa!... De seu esplêndido país, por exemplo.
— O Sr. duque conhece o Brasil?...
— Não. Nunca fui ao Brasil, mas tenho lá muitos parentes e amigos.
Parentes! Na corte ou nas províncias?
— Na corte.
— Ah! Então devo conhecer algum deles. Eu sou filha da corte.
— É inútil insistirmos: não conhece com certeza... é uma família de estrangeiros...
— Ah! balbuciou Filomena, tornando-se mais cortês, porque havia já suspeitado quem vinha a ser aquela incógnita visita. — É ele, com certeza... pensou de si para si.
Mas, nesse momento, o Borges acabava de entrar na pequena sala e, no seu papel de botocudo, foi assentar-se a um canto, sem mais cerimônias.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.