Por José de Alencar (1875)
Enquanto se cumpria sua ordem, abriu ele próprio a maleta, e tirou uma por uma as peças enxovalhadas, um pequeno estojo de toucador, e outras coisas de uso comum. No fundo havia um volume envolto em papel e atado com uma fita preta.
Continha as fotografias de Pedro Camargo, da mulher e dos dois filhos; a certidão de casamento e as de batismo dos dois meninos, e finalmente uma carta sem sobrescrito dirigida ao fazendeiro.
Essa carta de data muito anterior ao falecimento, indicava que Pedro Camargo tinha a princípio pensado em suicidar-se, e se preparara para levar a efeito esse desígnio, escrevendo ao pai a fim de implorar-lhe o perdão de sua falta.
Depois de fazer a confissão do casamento que havia ocultado só pelo receio de afligir ao pai, suplicava-lhe que protegesse sua viúva e aqueles órfãos inocentes, que eram seus netos, e que o haviam de substituir a ele Pedro, no amor e na veneração.
Lendo essa carta, Lourenço Camargo afigurou-se receber as últimas palavras do filho; e lembrou-se quanto fora injusto duvidando da realidade desse casamento de que ali tinha a prova irrecusável.
Era uma alma rude, mas direita.
Nessa mesma noite partiu para a corte. Por intermédio do correspondente mandou colher informações na vizinhança e soube que a viúva ainda morava na mesma casa.
Depois destas explicações, que arrancaram lágrimas às duas senhoras, sobretudo quando leram a carta de Pedro Camargo, o velho deu um giro pela sala e tomando o chapéu disse:
- Chorem a seu gosto; eu voltarei depois.
De feito voltou todos os dias enquanto demorou na corte. Por seu gosto teria enchido de presentes a Aurélia e à mãe; porém as duas senhoras acanharam-se com a excessiva liberalidade, pelo que amuou-se o velho fazendeiro:
- Pois bem, não lhes darei nada. Quando precisarem peçam.
Dois dias depois deste incidente apresentou-se o velho com um maço de papel lacrado. Ao tirá-lo do bolso do jaleco, refranziu jocosamente a cara para Aurélia:
- Não vá pensando que é presente, não, senhora dona! Fique descansada. Quero que me guarde aqui este papel, até a volta.
- Se tem dinheiro, acho melhor... ia dizendo Aurélia.
- Qual dinheiro! Vocês parece que têm nojo dos meus cobres!
- Não é por isso, meu avô. Bem vê que duas mulheres numa casa como esta oferecem pouca segurança.
- Pois saiba que isto é um papel... uma escritura que passei, e para a não perder na viagem, deixo em sua mão.
Na capa do maço estavam escritas em bastardinho estas palavras: "Para minha neta Aurélia guardar, até eu, seu avô, lhe pedir. L. S. Camargo".
Partiu o velho para a fazenda, tendo mandado adiante de si pedreiros, carapinas e pintores a fim de quanto antes transformar o velho e sujo casebre em uma habitação digna de receber a família de Pedro Camargo, com certo aparato que o fazendeiro considerava indispensável, como reparação de sua anterior indiferença.
Além do material do edifício, havia também no regime da casa certos hábitos inveterados, que se estabelecem em algumas fazendas, sobretudo quando são os donos solteirões. Camargo carecia de pelo menos um mês para proibir umas familiaridades antes toleradas e abolir certa moda de saia ou tunga que dava às crioulas uns ares de dançarinas, menos a calça de meia e os frocos de gaze.
Compreendia o Camargo, que estas minudências, inocentes para um velho barbaçudo como ele, deviam arrepiar os escrúpulos da corte. Mas quando essa idéia não lhe acudisse, bastava-lhe ter visto Aurélia e respirando a atmosfera de altiva castidade que envolvia a formosa menina, para não ousar profaná-la com o contágio daquelas indecências.
Logo após a partida de Camargo, D. Emília teve um dos costumes acessos da moléstia crônica; porém tão forte, que inspirou sérios receios ao médico. O paroxismo cedeu à aplicação de remédios enérgicos; mas a viúva não se levantou mais do leito onde agonizou cerca de dois meses.
Foi este o período mais difícil da vida de Aurélia; porque às mágoas acerbadas de seu amor ludibriado, acresceu a dor dos sofrimentos de sua mãe. E como se não bastasse esse golpe para acabrunhá-la, veio agravar esta situação, a miséria com seu cortejo.
Quando apareceu o Camargo enviado pela Providência para reconhecer a mora e a neta, a existência das duas senhoras já era bastante penosa. Consumido o dinheiro que lhes entregara o tropeiro, viviam das costuras de Aurélia e do preço de algumas jóias ainda presentes de Pedro.
Não chegavam porém estes escassos recursos; e teriam passado inclemências se não fosse o crédito obtido na loja e venda em que se supriam.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.