Por José de Alencar (1870)
Aí, encontrou outro animal, no qual era fácil reconhecer a Morena, pelas formas esbeltas e elegantes, vestidas da linda roupagem baia. Fora ela que chamara o filho. Pouco depois apareceram o Morzelo e o Ruão, nossos antigos conhecidos, que tinham seguido de perto o Juca.
Todos juntos se aproximaram do lugar onde estavao Canho deitado sobre o pelego à sombra de uma árvore. O gaúcho não dormia, mas tinha os olhos fechados e o rosto coberto com a aba do poncho. Parecia prostrado pela fadiga; tinha feito em duas semanas mais de duzentas léguas. Quinze dias antes estava em Camacã quando recebeu um recado de Bento Gonçalves que o chamava a toda a pressa.
O coronel lutava com um acesso de cólera terrível. Cruzava o aposento de uma a outra banda, trovejando como um temporal desfeito.
— Por quem me tomam eles!… Pensam que admito semelhante loucura? Estão enganados!… Tinha que ver que eu fosse por minhas mãos entregar o continente ao mazorqueiro!…
Manuel surpreso daquela agitação, esperou que o coronel se apercebesse de sua presença.
— Ah! estás aí?…
Bento Gonçalves foi a uma banca onde estavam emaçadas algumas cartas que ele acabara de escrever.
— Monta a cavalo, Manuel, e não pares enquanto não estiverem entregues todas estas cartas. Começarás pelo Rio Pardo e acabarás em Alegrete, na estância do coronel Bento Ribeiro. Aí poderás descansar. Tens dois soberbos corredores, o Juca e a Morena; és o primeiro peão que eu conheço. Se não deres conta da mão, ninguém mais o fará decerto.
— Fique descansado, meu padrinho, disse o gaúcho.
E partiu.
Na véspera passara por Bagé, de volta de sua comissão: tomara a estrada de Piratinim por um atalho, deixando Erval à direita; e fizera ali uma parada, contando chegar à vila por volta da noite.
Os animais pararam, a olhar afetuosamente o gaúcho; porém o Juca, mais afoito, chegouse perto e farejou-lhe o rosto para ver se dormia, ou talvez para avisá-lo que era tempo de pôr-se a caminho. Habituado a estas familiaridades, Manuel descobriu o rosto e correspondeu ao afago do alazão puxando-lhe carinhosamente a orelha.
De repente ecoou pelo campo um grito no meio de confuso tropel.
Erguendo-se rapidamente viu o gaúcho alguns animais de carga a correr pela várzea, e mais longe uma mula corcoveando para arrojar de si a moça que a montava. Um preto se lançara com a intenção de tomar-lhe o freio; porém, o animal furioso o tinha arremessado ao chão.
Quando o alazão passara pelo caminho a todo o galope, acudindo ao chamado da Morena, uma tropilha, que seguia o mesmo caminho dos viandantes, se espantara. As bestas retrocederam de corrida; o rumor dos couros que cobriam a bagagem ainda mais exasperou a mula que tomando o freio disparou, apesar de todos os esforços da gentil cavaleira.
Com o pescoço enroscado, o queixo fincado aos peitos, e o corpo encolhido, a mula assanhada dava saltos e corcovos terríveis. Ora contraía-se toda, e logo distendia-se no arremesso, forcejando para romper os arreios que a ligavam. Catita, porém, não perdia o equilíbrio e fustigava com o chicote a cabeça do animal.
Entretanto aos saltos a mula afastava-se da estrada. Na direção que ela seguia, o terreno elevado e pedregoso formava uma barranca sobre a charneca ou tremedal, a que na província dão o nome de sanga. Se a moça não conseguisse domar o animal, o que não parecia provável, na carreira cega em que ia, a catástrofe seria inevitável.
Tudo isto passara rapidamente ante os olhos do gaúcho. Compreendendo o perigo que ameaçava a moça, ele não teve tempo de refletir. Passou a mão ao laço, atirado sobre a grama junto aos arreios, e saltou no costado do Juca.
III
A PARADA
O alazão arrojou-se e fendeu os ares como uma águia; os pés nem pareciam tocar a terra, de tão rápida que era a corrida.
Com pouco vencendo a grande distância, aproximou-se da mula, que no auge da fúria, disparava em trancos formidáveis. A borda do precipício já não estava longe, e não tardaria que o animal num daqueles saltos precipitasse do barranco abaixo.
A gentil cavaleira sentira a iminência do perigo, e parecia que se preparava para evitá-lo. Sua mão, colhendo as amplas dobras da saia do roupão, revelava a intenção de saltar da sela. Naquelas circunstâncias, em um terreno tão áspero e com a sanha do animal, a resolução da moça podia ser-lhe fatal.
Mas que fazer? Diante estava o precipício do qual aproximava-se com espantosa velocidade. Se tinha de morrer, Catita preferia que fosse antes ali sobre o campo, do que no fundo de um barranco onde talvez seu lindo corpo chegaria dilacerado pelas pontas de pedra e tocos das árvores. Essa idéia triste porém, não se demorou no espírito da moça, passou como uma borboleta agoureira roçando as asas negras por seu espírito e logo se desvaneceu.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.