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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— Foi um raio que caiu na família aquele rapaz!... — juntou Mosqueira — mas pode estar na certeza que a sentença não se executa; diga a sua mãe que mo ouviu da minha boca. O meu tribunal está preparando para lhe minorar a pena em dez anos de degredo para a Índia, e seu pai. segundo me disse na passagem para Vila-Real, já preparou as coisas na suplicação e no desembargo do paço, não obstante o morto ter lá parentes poderosos nas duas instâncias. Quiséramos absolvê-lo e restitui-lo à sua família; mas tanto é impossível. Simão matou, e confessa soberbamente que matou. Não consente mesmo que se diga que em defesa o fez. É um doido desgraçado com sentimentos nobilíssimos! Chovem cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz com uma sem-cerimônia que indigna o ânimo.

— E essa menina que foi a causa da desgraça? — perguntou Manuel.

— Isso é uma heroína! — respondeu o corregedor do crime, — Davam-na já por morta quando Simão chegou aqui. Desde que soube das probabilidades da comutação da pena, deu um pontapé na morte, e está salva, segundo me disse o médico.

— Conhece-a muito bem, minha senhora? — disse o desembargador à dama, suposta irmã de Manuel.

— Muito bem — respondeu ela, relanceando os olhos ao amante.

— Dizem que é formosíssima!

— Decerto — acudiu Manuel — é formosíssima!

— Muito bem — disse o corregedor, erguendo-se. — Leve este abraço ao pai, e diga-lhe que o condiscípulo cá está leal e dedicado como sempre. Eu tenho de lhe escrever brevemente.

— E outro abraço a sua virtuosa, mãe — acrescentou o desembargador.

— Vou desconfiado! — disse o Mosqueira ao colega. — Manuel Botelho tinha, há coisa de um ano, fugido para Espanha com uma senhora casada. Aquela mulher que vimos não é irmã dele.

— Pois, se nos mentiu, é patife, por nos obrigar a cortejar uma concubina!... Eu me informarei... — disse o corregedor, ofendido no seu austero pundonor.

E no próximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no período final "Tive o gosto de conhecer teu filho Manuel e uma de tuas filhas; por ele te mandei um abraço, e por ela te mandaria outro, se fosse moda ensinarem velhos a meninas bonitas como se dão os abraços nos pais".

Estava já Manuel em casa, e cuidava em trajar uma modesta casa para a açoreana, auxiliado por sua bondosa e indulgente mãe. Domingos Botelho fora informado da vinda, e dissera que não queria ver o filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavalaria seis desde que abandonara os estudos, onde estava com licença.

Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou imediata e secretamente devassar se em Vila-Real estava a senhora que indicava a carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, enquanto Manuel Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz de fora, e este mandou chamar à sua presença a mulher suspeita, e ouviu dela a sua história sincera e lacrimosamente contada. Condoeu-se o juiz, e revelou ao colega as suas averiguações, Domingos Botelho foi a Vila-Real, e hospedou-se em casa do juiz de fora, onde a senhora foi novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da província lavrava ordem de prisão para o cadete desertor de cavalaria de Bragança.

A açoreana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda sambra, e aparência de intenções sinistras.

— Eu sou pai de Manuel — disse Domingos Botelho. Sei a história da senhora. O infame é ele. Vossa senhoria é a vítima. O castigo da senhora principiou desde o momento em que a sua consciência lhe disse que praticou uma ação indigna. Se a consciência lho não disse ainda, ela lho dirá. Donde é?

— Da ilha do Faial — respondeu trêmula a dama.

— Tem família?

— Tenho mãe e irmãs.

— Sua mãe aceitá-la-ia, se a senhora lhe pedisse abrigo?

— Creio que sim.

— Sabe que Manuel é um desertor, que a estas horas está preso ou fugitivo?

— Não sabia...

— Quer isto dizer que a senhora não tem proteção de alguém...

A pobre mulher soluçava, abafada por ânsias, e debulhada em lágrimas.

— Por que não vai para sua mãe?

— Não tenho recursos alguns — respondeu ela.

— Quer partir hoje mesmo? A porta da estalagem. daqui a pouco, encontrará uma liteira e uma criada para acompanhá-la até ao Porto. Lá entregará uma carta. A pessoa a quem escrevo lhe cuidará da passagem para Lisboa. Em Lisboa outra pessoa a levará a bordo da primeira embarcação que sair para os Açores. Estamos combinados? Aceita?

— E beijo as mãos de vossa senhoria... Uma desgraçada como eu não podia esperar tanta caridade.

Poucas horas depois. a esposa do médico...

— Que tinha morrido de paixão e vergonha talvez! — exclama uma leitora sensível.

— Não, minha senhora; o estudante continuava nesse ano a freqüentar a Universidade; e, como tinha já vasta instrução em patologia, poupou-se à morte da vergonha. que é uma morte inventada pelo visconde de A. Garrett no Fr. Luiz de Sousa, e à morte da paixão. que é outra morte inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos maridos a quem o século dotou de uns longes de filosofia, filosofia grega e romana, porque bem sabem que os filósofos da antigüidade davam por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor lhas não tiravam, E esta filosofia hoje então...(6)

(continua...)

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