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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

O marinheiro acompanhou o amo ao Paraguai e, por ordem dele, aí ficou para o secundar nos seus negócios; depois, com a segunda viagem de Leão Vermelho, terminaram as especulações deste, e o marujo conseguiu encartar-se a bordo de um navio brasileiro. Só voltou à Corte com o fim da guerra e passou então a trabalhar como calafate no arsenal de marinha. Nesse estado é que o encontramos no café da Menina do Bandolim.

Sabe agora o leitor a verdadeira causa do espanto, e talvez da alegria, de Tubarão ao ouvir dizer pelo Talha-certo que Pedro Ruivo estava no Rio de Janeiro. O marinheiro nunca perdoara o mal que o tratante fizera a Cecília e aguardava ainda, com o mesmo empenho, um seguro momento de vingar a sua querida exama. Cumpre também esclarecer um outro ponto: quais as relações que existem entre o comendador Portela e o tal Ruivo; relações estas que implicam com uns certos documentos desfavoráveis ao comendador e que se supunham em poder do Ruivo.

Vamos a isso, mesmo porque é tempo de acentuarmos melhor este tipo, cujo desenho foi até agora apenas esboçado por alguns fatos de sua vida.

Ruivo era uma dessas figuras indefinidas e duvidosas, das quais é muito difícil determinar, só pelas aparências físicas, o caráter, as intenções e a idade. A expressão da sua fisionomia variava conforme a situação; nadavam-lhe às vezes os olhos em um mar de ternura, às vezes cintilavam de esperteza e ganância, e às vezes amorteciam indiferentes e distraídos. E todo o rosto acompanhava essa ginástica dos olhos, fazendo-se, ora compassivo, ora carrancudo, ora imbecil. A tez, tão facilmente aparecia corada e lustrosa, como se tornava pálida e baça. Os lábios mexiam-se de mil modos e davam à boca toda as expressões da dor, da alegria, da maldade e do heroísmo; só um traço se conservava fiel aos seus lábios: era um certo arquear do canto da boca, como se nota em geral nos velhos cômicos, habituados ao falso riso.

Pedro Ruivo talvez tivesse dado de si um bom ator. Ninguém como ele governava tão despoticamente a fisionomia, e ninguém sabia conduzir as inflexões da voz com tanta arte e com tanta felicidade. Quando queria enganar alguém, arrancava da garganta maviosos queixumes doloridos, ou então gritos indignados, agudas exclamações de cólera, de amor e de pasmo.

Tudo isto sem o menor esforço, sem o menor estudo. Conhecia por natureza todos os segredos da ciência de agradar, de abrir os corações e ir penetrando familiarmente por eles, como quem dispõe do que é seu.

Entretanto não tinha amigos e era incapaz de fazer o menor serviço desinteressado, fosse ele o mais simples deste mundo. Quando se mostrava indignado defronte de alguma injustiça ou de qualquer perversidade, ninguém acreditaria que ali estivesse o mais cínico dos homens; da mesma forma, quando tinha de desagravar o suposto brio de qualquer ofensa, ninguém, pelo seu aspecto resoluto e digno, seria capaz de perceber o poltrão que se escondia debaixo dele.

Com semelhantes dotes conseguiu sobreviver ao destroço dos seus bens e conseguiu inspirar simpatia a muita gente. Logo que empobreceu, principiou a tirar partido do jogo; não jogava sem trapacear. Uma noite, justamente no tempo em que perseguia a mulher de Leão Vermelho, foi pilhado em ladroeira, e teve que fugir do Porto. Assim se explica a sua desaparição, quando o marinheiro pretendia lançar-lhe as unhas.

Pedro Ruivo conseguiu passar ao Rio de Janeiro. O Brasil sorria-lhe de longe, como um vasto campo onde podia ele exercer livremente a sua arriscada indústria. Começou logo a correr as províncias, já engajado em uma companhia dramática, como secretário; já à sombra de algum amigo remediado de fortuna; já como fac totum de alguma estrela de brilho suspeito.

E assim se escoaram quinze anos; apareceram-lhe as rugas e os cabelos brancos. O libertino compreendeu então que havia esbanjado todos os bens com que viera ao mundo, e caiu em um grande desânimo. Sentia-se cansado de não haver feito coisa alguma; a idéia da sua maldade e da sua influência perversa sobre aqueles com quem convivera, encheu-lhe o coração de um profundo desgosto envergonhado. Pensou no suicídio. A morte apareceu-lhe como aparece a idéia de deserção ao mau soldado; queria fugir da vida, porque esta se convertera para ele em uma mochila difícil de suportar. Mas não teve ânimo de morrer; não teve coragem de separar-se por uma vez daquela matéria vil, que lhe reclamava dia a dia o necessário para alimentá-la. Que inferno! considerava ele nos seus momentos terríveis. Que inferno! ter eu de sustentar esta besta!

Era o egoísmo na sua suprema expressão. E a existência tornara-se-lhe assim um verdadeiro tormento. Vivia mal cuidado, mal nutrido, às vezes sem casa, sempre sem esperanças e sem alegrias. A felicidade dos outros o torturava de modo cruel; não podia ver ninguém desfrutar a vida satisfeito.

(continua...)

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