Por Aluísio Azevedo (1884)
Por outro lado, o Hércules Inglês ia conquistando as simpatias do público. A sua melhor sorte era a que ele executava com o bom Urso: "a vida pelo combate ou a luta terrível do homem com a fera", segundo diziam os anúncios.
Consistia no seguinte:
Seis homens arrastavam para o meio do circo uma enorme gaiola de grossos varões de ferro, pousado sobre quatro rodas, na qual vinha o pobre animal, arvorado em fera e preparado de modo a iludir os mais espertos.
Logo depois, com as suas suíças ruivas, as suas faces cor de sangue, aparecia o Borges, vestido de guerreiro romano, cheio de escamas e cintilante de lantejoulas: na cabeça um grande capacete de folha de Flandres e na mão uma pequena vara de ponta encarnada.
A terrível fera, ao ver surgir o domador, começava a agitar-se, a espolinharse como sequiosa de sangue.
Ouviam-se então por todo o circo uns rugidos medonhos e atroadores, que Bela, escondido debaixo da gaiola, soltava com o auxílio de uma trombeta de sua invenção.
Todos emudeciam. E, entre o resfolegar ansiado do público, caminhava o domador a passos firmes para a jaula. Abria a portinhola, entrava, e de carreira ia lançar-se ao monstro, que se erguia logo nas pernas de trás e roncava com mais força.
Principiava a luta.
Por vezes caía o homem, quase vencido, mas de pronto se levantava e de novo investia contra o formidável adversário, até conseguir domá-lo, segurando-lhe o pescoço com uma das mãos e paralisando-lhe com os pés o movimento das pernas.
Nisto, de todas as curvas da barraca, rompiam os aplausos. E, dentre a enorme gritaria, só se destacava uma palavra, que era repetida por mil bocas:
— Basta! Basta! Basta!
E o Hércules, inalterável e frio como se tivesse plena consciência de seu valor, saía da jaula, fechava bem a cancela, cumprimentava o público e recolhia-se modestamente ao interior do circo.
Quando porventura aparecia alguém que quisesse lutar, ele nunca se negava; e, quando não aparecia, era o Bela que desfrutava essa honra, deixando-se vencer no fim de um quarto de hora, e retirando-se depois para os fundos do barracão debaixo de uma tremenda vaia do público.
O fato é que, dentro de pouco tempo o empresário levantou a cabeça, graças aos seus novos artistas, que eram já considerados os primeiros da troupe. Mas, se quis conservá-los, e conseguir que eles o acompanhassem numa excursão pelas outras províncias, teve que lhes dobrar o ordenado, oferecendo-lhes depois novas vantagens, e, afinal, associá-los à empresa.
Borges e a mulher faziam progressos admiráveis. Depois de percorrerem
Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas, achavam-se possuidores de alguns contos de réis e podiam, como desejava o marido, abandonar a vida de saltimbancos e abraçar uma carreira menos repugnante.
Mas, no coração romanesco e aventureiro de Filomena, o prazer do aplauso, o gozo da nomeada, encontraram terreno propício e haviam já cravado bem fundo as suas raízes.
Entretanto, a vaidade de artista festejada pedia-lhe horizontes mais largos e conquistas mais nobres. Agora toda sua ambição era ligar o seu verdadeiro nome, o. seu nome de batismo, às glórias que conquistava em público.
Não hesitou em separar-se do Bela, contratar por sua conta novos artistas, formar um novo plano de trabalho e, com o seu vasto repertório de lundus, tangos e modinhas brasileiras, que ela colecionara pelas províncias, e, com as vestimentas indígenas, que trouxera do Amazonas, levantou ferro para as repúblicas vizinhas.
Mau grado os conselhos de Borges, que ardia por um momento de descanso, percorreu-as de Patagônia a Venezuela. Seguiu depois para a América do Norte, onde, durante um ano, ganhou rios de dinheiro, e por fim, aguilhoada pela idéia de aparecer na Europa, despediu todo o pessoal e, apenas acompanhada pelo marido e pelo Urso, levantou a proa sobre Paris.
CAPÍTULO XVI
SEGREDOS DE BASTIDOR
O Borges, a despeito de sua constante revolta com o destino, nunca estacionou um momento.
Aprendeu a executar os jogos malabares, exercícios no trapézio, ginástica sobre o cavalo, mágicas e prestidigitação.
De Hércules Inglês passou a equilibrista japonês, fazendo-se anunciar com o nome de Tchím-Chim-Fu. E trabalhava vestido de seda amarela, uma grande mitra encarnada, um leque na mão, todo cheio de mesuras e saltinhos, sem que ninguém pudesse suspeitar que aquelas pantominices escondiam um coração puro e singelo, talhado para o amor da família, para a dignidade do lar doméstico e para os exemplos da honra e da perseverança no trabalho.
E promiscuamente foi tudo quanto se pode ser dentro de um circo, desde o palhaço vulgar, de cabeleira pontiaguda e cor de fogo, a cara empastada de alvaiade, até o empresário de casaca e luva, que dirige os trabalhos e manobra os cavalos, de chicote em punho e comenda ao peito.
Mas em Paris faria de selvagem. Estudou bem um botocudo e escolheu o pseudônimo de Bu-ru-cu-lu-lu, que, com certeza, iria produzir muito boa impressão nos anúncios.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.