Por Aluísio Azevedo (1884)
Tinha alguma coisas, gostava de ir à Europa de vez em quando, e o seus quarenta não espantavam a ninguém; ao contrário, ainda havia muito olho esperto de mulher que se arregalava para o ver. Isso sem falar nas senhoras que se foram aposentando, enquanto ele parecia eternamente empalhado nos seus fraques irrepreensíveis, nos seus chapéus à moda e nos seus enormes sapatos à inglesa, de um elegantismo feroz. Em consciência, ninguém o poderia qualificar senão de rapaz. As mulheres eram o seu fraco, o seu vício mais acentuado; várias anedotas suas, inspiradas neste assunto, corriam de boca em bocas há vinte anos.
Amâncio ficou muito seu camarada, desde a primeira visita. Em menos de uma horas de conversação, falavam já sobre as cocotes mais conhecidas na Corte; e , alguns dias depois, quando se encontraram na Fênix, o Freitas apresentou-lhe uma espanholona de buço louro, a qual nessa ocasião passava pelo corpo mais bonito do mundo equívoco.
— Pois você já está um fluminense acabado! Disse o elegante, a medir Amâncio de alto a baixo. — Não imaginei que andasse tão depressa...
E, porque voltasse à conversa sobre mulheres, continuou o que dizia há pouco: — Infelizmente só chegamos a conhecê-las quando vamos caindo na idade; de sorte que é preciso aproveitar o espaço que medeia dos trinta aos quarenta anos; antes disso — não sabemos, depois — não podemos. Ah! se aos vinte já se conhecesse a mulher... se então já se soubesse quais são os seus gostos e suas preferências...se tal acontecesse, nem uma só se conservaria virtuosa!...Mas, nesse período doas sonhos e das ilusões, no período em que está o senhor, meu amigo, ninguém é capaz de ma audácia! Para chegar a fazer qualquer coisa é preciso ser provocado, mas muito provocado!
Amâncio protestava com um sorriso pretensioso.
— Oh! Oh! Exclamou o outro, cheio de experiência, a calcar o monóculo sobre o olho. — Já tive a sua idade, meu amigo, já tive a sua idade Pensava então que , para agradar mulheres , era indispensável fazer-me bonito, meigo, romântico, atencioso, que sei eu!...Engano! puro engano! Elas aborrecem tudo isso, e só exigem três coisas num homem: A primeira — muita audácia; a Segunda — um pouco de inteligência; a terceira — algumas relações na boa sociedade! E... ainda temos uma de que me esquecia e que entretanto é a base de todas as outras:— Não ser seu marido!...Com estas quatro habilidades, desde que se tenha mocidade e boa disposição, não há mulher que resista! Quanto à beleza, boas maneiras e bom caráter — histórias, homem! histórias! Elas, ao contrário, detestam os tipos afeminados e não morrem de amores pelos sujeitos rigorosamente honestos, e bem comportados. Qual! Querem o seu bocado de vício; o belo do deboche de vez em quando, para variar!...
E, metendo as mãos nos bolsos da calça, e jogando o corpo com ar canalha:
Lá para a seriedade basta-lhe o marido! É boa!
Amâncio ria-se, abarrotado de intenções. O Freitinhas foi nesse momento apreendido pelo dono da casa: “As damas reclamavam as sua presença, dele, nas salas! Era preciso não se meter pelos cantos!”
O Dr. Freitas deixou-se levar, sempre muito enfastiado; mas, antes de ir, bateu no ombro de Amâncio e segredou-lhe com a sua voz de tuberculoso: Aproveita, menino, aproveita! Não mandes nada ao bispo!
* * *
Iam já desaparecendo os convidados. Os pais de família toscanejavam encostados às ombreiras das portas, esperando, com os braços carregados de capas e mantas, que as mulheres e as filhas se resolvessem a seguir para casa. Havia um vago tom de cansaço nas fisionomias; entretanto, alguns cavalheiros jogavam ainda, em um quarto próximo, à luz trêmula das velas de estearina. O melo conduzia senhoras pelo braço à porta da rua, agradecendo-lhes muito o obséquio de aceitarem o seu convite.
Foi Amâncio que ajudou Hortênsia a entrar na carruagem. O Campos parecia contrariado com a demora. — há duas horas que desejava se retirar.
Encurtaram-se as despedidas. O horizonte principiava a franjar-se com os galões prateados da aurora, e , do lado das montanhas desciam tons matutinos da natureza que desperta.
Hortênsia, muito embrulhada na sua capa de casimira branca e guarnecida de arminhos, atirou-se com impaciência sobre as almofadas do carro, levantando um luxuoso farfalhar de sedas que se amarrotam. Logo, porém, que o cocheiro sacudiu as rédeas, ela chegou o rosto à portinhola, e gritou para fora:
— Aparece Domingo! Vá jantar conosco. Adeus!
Amâncio, perfilado na calçada, o chapéu suspenso na mão direita, em atitude de quem faz um cumprimento respeitoso, disse, agitando o braço: — Adeus, minha senhora. Hei de ir.
O carro do Campos tomou a direção da Praia de Botafogo; o rapaz ainda o acompanhou com a vista; depois, levantando os ombros e abotoando melhor o sobretudo, meteu-se num tílburi que se aproximava lentamente e mandou tocar para a casa de pensão.
O animal disparou, sacudindo as crinas ao vento fresco da manhã.
* * *
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.