Por José de Alencar (1875)
- Não me pertenço, senhor Abreu; se algum dia pudesse arrancar-me a este amor fatal, e recuperar a posse de mim mesma, creia que teria orgulho em partilhar a sua sorte.
Três dias depois partia um vapor para Europa. Abreu tomou passagem, e foi aturdirse em Paris, onde lhe ficaram as ilusões da mocidade e algumas dezenas de milhares de cruzeiros, mas não a lembrança de Aurélia.
Entretanto Seixas começava a sentir o peso do novo jugo a que se havia submetido.
O casamento, desde que não lhe trouxesse posição brilhante e riqueza, era para ele nada menos que um desastre.
As despesas de ostentação com sua pessoa unicamente, absorviam-lhe todo o rendimento anual, além dos créditos suplementares. Que seria dele quando além do seu, tivesse de prover também ao luxo de uma mulher elegante, que ela só come em sedas mais do necessário alimento de uma numerosíssima família? Isto sem falar da casa, que se em solteiro ele conseguira reduzir ao estado de mito, adquiria para o marido de uma senhora à moda, uma evidência cara.
A promessa feita ao pai de Adelaide era explícita e formal. Em caso algum Seixas se animaria a negá-la e faltar desgarradamente à sua palavra; mas como não se obrigara a realizar o casamento em prazo fixo, esperava do tempo, que é grande resolvente, uma emergência feliz o libertasse.
Por essa época predispuseram-se as coisas para a candidatura que o nosso escritor sonhava desde muito tempo; e coincidindo elas com a partida da tal estrela nortista, lembrou-se Fernando de fazer uma excursão ero-política por Pernambuco, a expensas do Estado.
Nunca porém se resolveria a esse desterro de ano, se não esperasse com esse adiamento esgotar a paciência de Adelaide.
Tanto a moça, como o pai, instaram para efetuar o casamento antes da partida; mas Fernando, que do seu tirocínio de oficial de gabinete aprendera todas as manhas de ministro, e se preparava para copiá-las em um futuro não muito remoto, opôs à pretensão da noiva a razão de estado.
Recebera ordem do governo para partir imediatamente: se não obedecesse, arriscavase a uma demissão.
VII
Um dia, por manhã, bateram à porta de D. Emília.
Quando a viúva e a filha vieram à sala, acharam sentado no sofá um velho alto e robusto, cujo traje denotava provinciano ou homem do interior. Tinha o rosto sangüíneo e os traços duros e salientes.
Cravou ele o olhar pesado no semblante de Aurélia, sem erguer-se à chegada das senhoras. Depois de ter assim examinado a menina, com insistência desusada, volveu a vista para a viúva; reparou no vestido preto desbotado que ela trazia por casa, e tornou a descarregar os olhos torvos sobre a moça.
D. Emília assustada com estes modos, trocou um sinal de inteligência com a filha. Ambas receavam achar-se na presença de algum louco ou ébrio; julgando-se expostas a um desacato, não sabiam o que fazer.
Entretanto as lágrimas saltavam aos molhos das pálpebras do velho, que erguendo-se de sopetão correu a Aurélia, e suspendeu a moça nos braços antes que ela se pudesse esquivar.
- Que é isto, senhor? Está louco? Disse D. Emília levantando-se para defender a filha.
As palavras da viúva e ao grito que soltara Aurélia, o velho recuou e quis falar; mas o soluço embargava-lhe a voz:
- Não me conhece, minha filha? Sou o pai de seu marido!
- O sr. Lourenço Camargo?
- Ele mesmo. Não consente que abrace minha neta?
Foi Aurélia quem se lançou nos braços do velho, e este depois que a teve cerrada ao peito por algum tempo, desviou-se bruscamente, e foi sentar-se num sofá, enxugando o rosto com o grande lenço de seda enrolado em uma bola.
- É o retrato de meu Pedro. Pobre rapaz! Murmurou o velho.
Depois de algumas perguntas acerca do nome e idade de Aurélia, explicou o fazendeiro a razão de ali achar-se naquele momento, reconciliado com sua nora, e pesaroso do modo por que se portara com ela.
Na estalagem ou rancho em que falecera, deixou Pedro Camargo sua maleta. Guardou-a o dono da casa com tenção de levá-la à fazenda ou mandá-la pelo primeiro portador. Por lá ficou anos até que pairou aí por acaso um formigueiro, nome que dão a indivíduo perito em destruir o inseto daninho que devora as roças.
Esse de que se trata ia à fazenda do Camargo oferecer os seus serviços, e incumbiuse de levar a mala. Ao recebê-la, avivaram-se ao fazendeiro as saudades do filho; enxugou os olhos, e mandou acender uma fogueira no terreiro para queimar os objetos que haviam pertencido ao morto.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.