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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

A formosa estampa se debuxa contra o azul diáfano do horizonte, como uma estátua de bronze sobre alto pedestal. O porte é majestoso; a atitude briosa e arrogante. Com a fronte erguida, coroada pela crina soberba que o vento agita como a juba do leão, o altivo corcel lança pelo vale um olhar sobranceiro. A mão esquerda finca na terra, com o jarrete de aço distendido, enquanto a destra, batendo amiúde mas cadente, escarva ligeiramente o chão. 

A roupagem é do mais puro e brilhante alazão, sobre o qual destaca a seda opulenta das crinas e da longa cauda, bem como a orla de branco arminho que cinge-lhe a raiz do casco alto, de rijas tapas, fino e bem copado. 

Outrora os mestres da nobre arte da gineta acreditavam que dos quatro elementos da natureza derivavam as cores predominantes na raça hípica, e daí tiravam indícios a respeito das qualidades e defeitos do animal. Assim o preto indicava a terra, o branco a água, o castanho o ar, e o alazão o fogo. 

Quem visse o lindo ginete, cujo pêlo cintilava com os raios do sol, acreditaria que realmente aquele soberbo animal tinha nas veias o fogo que dardejava na pupila negra, e cujo fumo resfolgava dos grandes alentos na respiração ardente. Os hipogrifos, que combatiam entre chamas, deviam vestir aquela auréola esplêndida, que envolvia o brioso corcel. 

Tinha esse cavalo os traços que entre os árabes indicam o animal de fina raça. Cabeça pequena e descarnada; fronte larga, alçada com ardimento e nobreza; grandes e proeminentes, os olhos límpidos que afrontavam o sol; orelhas curtas, rijas, canutadas, e tocando-se nas extremidades, pescoço largo e na volta garboso, como o colo do cisne; as pernas delgadas e nervosas, mostrando no relevo dos músculos sua firmeza e elasticidade; o peito amplo e vigoroso; a anca redonda, mas fina; os flancos delgados, esbeltos e flexíveis. 

Não pertencia, porém, o corcel à aristocracia hípica do Oriente; era um selvagem americano, um filho dos pampas. Viera das tropas bravias que povoam as estepes do Sul; provinha dos baguás que montavam os guaicurus. Tinha melhor genealogia que as coudelarias dos califas; descendia da natureza virgem; nascera no deserto. 

Não recebeu a América, do Criador, as três raças de animais, amigos e companheiros do homem, o cavalo, o boi e o carneiro.  Este fato, que à primeira vista parece uma anomalia da natureza, revela ao contrário um desígnio providencial. Regenerar é a missão da América nos destinos da humanidade. Foi para esse fim, que Deus estendeu de um pólo a outro este vasto continente, rico de todos os climas, fértil em todos os produtos, e o escondeu por tantos séculos sob uma prega  de seu manto inconsútil.  

O gênero humano pressentiu esta alta missão regeneradora da América, dando-lhe a designação de Novo Mundo. De feito é nas águas lustrais do Amazonas, do Prata e do Mississipi, que o mundo velho e carcomido há de receber o batismo da nova civilização e remoçar. 

Para não exaurir, mas concentrar, a seiva exuberante da terra virgem, despovoou-a o Criador daquelas raças nobres, que ela estava destinada a juvenescer. Mas apenas a semente caiu na vigorosa argila que a esperava, desenvolveu-se com uma possança formidável. Como ao homem europeu e a todos os animais domésticos que formam a família irracional, como a todos os produtos úteis do velho continente, a América adotou o cavalo; mas a este parece que o concebeu no seio do deserto, e o fez selvagem de seus pampas. 

Tem o potro americano sobre o potro árabe a grande superioridade da natureza. A liberdade é força e beleza; nem há no mundo outra nobreza real e legítima, senão essa. A elegância da forma, a altivez da expressão, a coragem, o pundonor e o brilho, são donaires que ao homem, como ao cavalo, dá a consciência de sua liberdade. 

Do espartano, que ainda hoje nos enche de admiração com o exemplo de seu heroísmo e sobriedade, fazemos o maior elogio nesta frase — “era um cidadão livre”. Daquele brioso cavalo se podia dizer da mesma forma, para exprimir com eloqüência a sua formosura e nobreza; “era um corcel livre”. 

Nenhum homem o escravizara jamais; nenhum se atrevera a castigá-lo; era indômito ainda como no tempo em que percorria os pampas nativos. Mas o potro selvagem tinha um amigo, quase um pai, a quem o ligara um profundo sentimento de gratidão. E daí sem dúvida lhe provinha a altivez e majestade que ressumbrava em seu porte. 

O contato de nossa raça desvanece no animal o espanto selvagem que sente ainda o mais intrépido na presença do rei da criação. A amizade do homem inspira, sobretudo ao cavalo, uma emulação generosa, um heroísmo admirável. O Bucéfalo de Alexandre, o Morzelo de César, e o Orélia do rei D. Rodrigo, foram dignos dos heróis a quem serviram. 

Não tivera a moça tempo de admirar a linda estampa do alazão, porque apenas se desvaneceu ao longe o eco do relincho, ele desceu a coxilha à disparada, e atravessando a estrada, sumiu-se por detrás de uma restinga de mato. 

(continua...)

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