Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Qual marido!... — disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras lágrimas que Simão lhe vira — Eu nunca me lembrei disso, nem ela!... Eu sei que sou um ferrador, e ela sabe que pode ser sua criada, e mais nada, senhor Simão; mas... sabe que mais? Eu desejo que os meus amigos sejam desgraçados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre rapariga! Não falemos nisto, que eu por milagre choro; mas, quando pego a chorar, sou um chafariz... Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a cômoda ali; duas cadeiras deste lado, e duas daquele. A barra acolá. O baú debaixo da cama. A bacia e a bilha da água sobre esta coisa, que não sei como se chama. Os lençóis e o mais bragal tem-nos lá a rapariga. Amanhã é que o quarto há de ficar que nem uma capela. Olhe que a Mariana já me disse que comprasse duas aquelas... Como se chamam aquelas envasilhas de pôr ramos?
— Jarras.
— E como diz, duas jarras para flores; mas eu não sei onde se vende isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça há de cuidar que me não deixar sair da cadeia. Ainda lhe não disse que não me deixaram cá entrar ontem à tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua mãe para um senhor desembargador, fui onde a ele, e hoje de manhã já lá tinha na estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. Até logo.
CAPÍTULO XVI
Um incidente agora me ocorre, não muito concertado com o seguimento da história, mas a propósito vindo para demonstrar uma face da índole do excorregedor de Viseu, já então exonerado do cargo.
Sabido é que Manuel Botelho, o primogênito. voltando a freqüentar matemáticas em Coimbra, fugira dali para Espanha com uma dama desleal a seu marido, estudante açoreano que cursava medicina.
Um ano demorara na Corunha Manuel Botelho com a fugitiva. alimentandose dos recursos que sua mãe, extremosa por ele, lhe remetia, vendendo a pouco e pouco as suas jóias, e privando as filhas dos adornos próprios dos anos e da qualidade.
Secaram-se estas fontes, e não restavam outras. D. Rita disse afinal ao filho que deixara de socorrer Simão por não ter meios; e agora das escassas economias que fazia nada podia enviar-lhe porque estava em obrigação de pagar os alimentos de Simão à pessoa que por compaixão lhos dera em Viseu, e lhos estava dando no Porto. Ajuntava ela, para consolação do filho, que viesse ele para Vila-Real, e trouxesse consigo a infeliz senhora; que fosse ele para casa, e a deixasse a ela numa estalagem até se lhe arranjar habitação; que o ensejo era oportuno por estar na quinta de Montezelos o pai, quase divorciado da família.
Voltou pelo Minho Manuel Botelho, e chegou com a dama ao Porto, quinze dias depois que Simão entrara no cárcere.
Já noutro ponto deixamos dito que nunca os dois irmãos se deram, nem estimaram; mas o infortúnio de Simão remia as culpas do gênio fatal que o orfanara de pai e mãe, e só da irmã Rita lhe deixara uma lembrança saudosa.
Foi Manuel à cadeia, e, abrindo os braços ao irmão. teve um glacial acolhimento.
Perguntou-lhe Manuel a história do seu desastre.
— Consta do processo — respondeu Simão.
— E tem o mano esperanças de liberdade? — replicou Manuel.
— Não penso nisso.
— Eu pouco posso oferecer-lhe, porque vou para casa forçado pela falta de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei consigo da minha.
— Não preciso nada, Esmolas só as recebo daquela mulher.
Já Manuel tinha reparado em Mariana, e da beleza da moça inferira conclusões para formar falsos juízos.
— E quem é esta menina? — tornou Manuel. — É um anjo... Não lhe sei dizer mais nada.
Mariana sorriu-se, e disse:
— Sou uma criada do senhor Simão e de vossa senhoria.
— E cá do Porto?
— Nã0, meu senhor, seu dos arrabaldes de Viseu. — E tem feito sempre companhia a meu mano?
Simão atalhou assim à resposta balbuciante de Mariana:
— A sua curiosidade incomoda-me, mano Manuel,
— Cuidei que não era ofensiva — replicou o outro, tomando o chapéu. — Quer alguma coisa para a mãe? — Nada.
Estando Manuel Botelho, na tarde desse dia, fechando as malas para seguir jornada para Vila-Real, foi visitado pelo desembargador Mourão Mosqueira e pelo corregedor do crime.
— Devemos à espionagem da polícia — disse o corregedor — a novidade de estar nesta estalagem um filho do meu antigo amigo, condiscípulo e colega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abraço e oferecer o nosso préstimo. Esta senhora é sua esposa? — continuou o magistrado, reparando na açoreana.
— Não é minha esposa... — balbuciou Manuel — é... minha irmã.
— Sua irmã... — disse Mosqueira — qual das três? Há cinco anos que as vi em Viseu, e grande mudança fez esta senhora, que não me recordo das suas feições absolutamente coisa nenhuma. E a senhora D. Ana Amália?
— Justamente — disse Manuel.
— Bela lhe afirmo eu que está, minha senhora; mas fez-se um rosto muito outro do que era!...
— Vieram ver o infeliz Simão? — atalhou o corregedor.
— Sim, senhor... viemos ver meu pobre irmão.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.