Por Lima Barreto (1921)
– Autênticas, filho! Lá, passa-se a linha equinocial para além da qual, como diziam os antigos, não há crimes. Em Poços, tudo joga: moças, meninas, matronas, barbadões sisudos, chefe de polícia, delegado, creio que até padres e irmãs de caridade.
– Não é possível?
– Pois vá lá, para veres só. Mas, como te dizia: não tinha até ali travado conhecimento algum, quando uma tarde após o jantar, estando sentado à varanda do hotel, um senhor bem disposto dirigiu-se a mim e disse-me prazenteiramente:
“Então doutor, está apreciando o crepúsculo de Poços? Com certeza é para ter saudades do Rio – não é?” Por aí fomos e travei conhecimento com o senhor coronel (da guarda nacional) Paulo Serpente. Era um homem tratável, fino, não parecia lá muito lido, mas denotava muita convivência com pessoas instruídas. Em uma semana, ele transformou a monotonia do meu viver. Fui ao salão, conversei, ouvi música, fiz até uma conferência literária – Céus de Veneza – onde nunca estive, e arranjei um amor pecaminoso sem inesperadas consequências. Uma tarde, o coronel perguntou-me: “Doutor, o senhor não joga poquer?” Não esperava por esta pergunta, mas respondi com franqueza: “Jogo, mas mal”. “Não importa, é só para entreter. Acedi, sem nenhuma repugnância. Após o jantar, ele me procurou e disse-me prazenteiro, mesmo à roceira: “Vamos à coisa doutor!” Indaguei: “E os parceiros?” “Já estão lá na sala.” Fomos, eu e ele. A sala de jogos de cartas ficava num pavilhão paralelo àquele em que se jogava o bacará, a roleta etc. Entre os dois uma espécie de jardim largo, mas bem maltratado e pouco iluminado. Fui apresentado ao doutor Simões Espinheiro, grande advogado no Rio; e o outro era um senhor Eufélio dos Anjos, que já conhecia por ser companheiro inseparável do coronel. Preparamos mesa, etc. e marcamos o valor da ficha. O advogado queria que fossem a dez mil-réis. E eu, para não fazer feio, concordei e Eufélio e o coronel, porém, julgaram melhor ser pela metade. Cada um de nós adquiriu cem fichas, quinhentos mil-réis; e começamos o jogo, hands, trincas, four... trepações, enfim, toda aquela complicação não havendo limite nas apostas. No fim de meia hora, tinha perdido tudo; no fim de hora e meia, só me restava o dinheiro do hotel. Quis levantar-me mas o coronel opôs-se e adiantou-me mais quinhentos, em fichas mas de beiço. Perdi. Pedi mais, perdi. Pedi mais e só de beiço, dois contos de reis. O tal advogado foi mais caipora do que eu, também era mais afoito, o bobo. Perdeu dezoito contos em cerca de três horas. Encheu cheques sobre um banco de São Paulo, deu a cada um o que competia; e levantou-se sorridente, cheio de indiferença. Mais tarde, vim a saber que ele pusera fora toda a fortuna da mulher. Era por isso. Por minha vez saí e procurei no jardim um lugar escuro onde chorasse as minhas mágoas. Como havia de pagar aqueles dois contos? Onde arranjar aquele dinheiro? Tinha que me ir embora no dia seguinte...
Nisto, surge-me o coronel Serpente que me fala: “Doutor, vamos jogar roleta?” Verdadeiramente acabrunhado, respondi-lhe: “Qual, coronel! Tenho sido tão caipora! Até não sei como...” Não acabei a frase. O coronel tirou da algibeira dois pacotes e mos deu. De espanto, eu não falava; ele, porém, disse-me com voz de amigo: “O doutor não nos deve nada. Leve o seu dinheiro. O senhor sabe que são precisos quatro parceiros, pelo menos para jogar o poquer? O doutor era-nos preciso, para depenar aquela paca, o Simões. Boa noite”.
O Malho, Rio, 19-7-1919.
MODAS FEMININAS E OUTRAS
De uns anos a esta parte, eu não vejo a Avenida nem a Rua do Ouvidor com os olhos de cinco anos para trás. De forma que, sendo assim, não faço reparo nos “almofadinhas”, “melindrosas”, “entupidinhas” e outras criaturas que tanto preocupam os nossos estetas de cinema.
Contudo leio-lhes as crônicas e fico admirado com o desvelo que têm em tratar dessas coisas de vestuário das moças com ares de que está lançando a excomunhão maior com auxílio da fatal Grécia.
Quando menino, conheci até a anquinha , o tundá ; e todos falavam mal dela ou dele, como imoral; entretanto, não deixava o tal adorno ver descoberta nenhuma parte do corpo. Ao contrário. Vieram o droit-devant, a jupe-culotte189 e outras norteações da alma feminina e todos teimaram em encontrar nesses vestuários das damas provas de impudicícia, de despudor e outras coisas correlatas.
Eu não sei quando eles têm razão, se é quando estimam as mulheres ultradecotadas nos grandes bailes e teatros, ou se é quando acham isto indecente no meio da rua.
Devia-se remediar essas discrepâncias e discordâncias de modo que não fossemos apelar para o duvidoso critério das propensões dos gregos que não o tinham firme, tanto assim que há estátuas de deuses e heróis deles que possuem ate nove cabeças e outras nem oito.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.