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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Quando, um ano depois, o comissário voltou ao Rio de Janeiro, em vez de ser recebido simplesmente pelos dois belos braços carnudos de D. Henriqueta, foi também recebido por mais outros dois, não tão provocadores, porém talvez mais belos e com certeza mais adoráveis: eram os bracinhos de uma filha.

O leitor não precisará fazer um grande esforço de inteligência para adivinhar que essa criança é Clorinda, a formosa criatura que havia de mais tarde cair nas garras do nosso Gregório.

Leão Vermelho continuava a prosperar; as especulações do Paraguai enchiam-lhe fartamente as algibeiras. D. Henriqueta desfez a casa de pensão, e dela conservou somente uma velha amiga de muitos anos: D. Januária; cumprindo deste modo, não só um dever de gratidão para com essa pobre senhora que fora por longo tempo o seu braço direito, como também evitando assim ficar só com a filhinha, durante as repetidas viagens do capitão.

O comissário comprou uma confortável casinha no Campo de Santana, preparou-a com o desvelo dos homens dados à família, e dispôs-se a encontrar, nesse modesto refúgio, a paz e a felicidade que não conseguiu gozar nos braços da esposa legítima.

Clorinda foi batizada muito modestamente; convidou-se para padrinho um rapaz da vizinhança, que já em algum tempo fora pensionista de Henriqueta: o Portela; belo moço do comércio, pacífico e apresentando bons costumes. Diziam dele coisas muito lisonjeiras, e entre os da mesma classe passava por espírito claro e vantajosamente cultivado.

Foi desse modesto padrinho que brotou aquele pretensioso comendador, com que travamos conhecimento desde o primeiro capítulo. Trazia já consigo certa pontinha de empáfia; já naquele tempo, se bem que os meios lhe não permitissem ainda ablaquear grande figura, gostava ele de empinar o nariz e de emitir opinião sobre assuntos de sua ignorância. Para madrinha convidou-se quem era de esperar: D. Januária. A boa senhora morria de amores pela filhinha da amiga; ficou satisfeita com a escolha. E tudo correu muito bem.

Leão Vermelho, ainda não saciado, voltou ao campo de suas especulações e, ao que parece, não com menor fortuna do que da primeira vez, porque ao voltar agora tratou de desenvolver a sua casa; cercou-se de opulência, abriu as salas e procurou estender as suas relações com a melhor sociedade.

O diabo era o fato de não ser casado ou, por outra, de ser já casado e não poder, assim, justificar as suas relações com Henriqueta e apresentá-la limpamente nos salões que em torno dele se abriam. Entretanto ninguém no Brasil parecia estar ao fato do seu casamento em Portugal, e ele próprio ia jurar que Cecília havia já morrido no tal convento a que afinal se recolhera, pois nunca mais lhe constou a menor novidade a respeito da pobre louca.

Sob esta impressão recebeu a notícia de que acabava de morrer em Minas

Gerais um tio materno de Henriqueta, do qual nem a própria sobrinha se lembrava.

Nada menos de uma herança de cem contos de réis! Este fato o decidiu a contrair casamento com a herdeira e partir depois em companhia dela para o lugar onde tinha de receber o legado; mas a fortuna, que até aí não o desamparara, entendeu desta vez virar-lhe as costas. O tio de Henriqueta deixara alguns parentes afastados; esses parentes cobiçaram também o dinheiro do defunto e trataram de guerrear a pretensão da sobrinha. Leão Vermelho foi perseguido; os inimigos, no furor de prejudicá-lo, descobriram a sua bigamia, levaram o escândalo para a imprensa e mais tarde para os tribunais O comissário, aflito com semelhante perseguição, deixara a província e, sendo acossado igualmente no Rio de Janeiro, fugira para Buenos Aires, ficando a mulher, a filha e D. Januária na Corte.

Definitivamente a estrela do pobre Leão Vermelho principiava de novo a assombrar-se, porque pouco depois da sua partida, Henriqueta falecia de um terrível aborto.

Contudo as perseguições continuaram, e Leão Vermelho resolveu voltar à pátria e reclamar depois a filha. Constou então que ele havia morrido e os inimigos para sempre se apaziguaram. Clorinda ficara em companhia da madrinha, D. Januária, que desde então principiou a servir-lhe de mãe. Foi nessas condições que a encontramos já mulher no primeiro capítulo, a vestir-se para o malogrado casamento de Gregório. O pai fazia chegar misteriosamente às mãos de Januária uma mesada, que chegava perfeitamente para ela e Clorinda. O leitor sabe já qual o efeito da suspensão dessa mesada com a morte real do comissário. Mas o que ainda não dissemos, e o leitor talvez não desdenhe saber, é o que foi feito de Tubarão, e quais as circunstâncias que o colocaram mais tarde ao lado de Talhacerto, envolvendo-o no crime da casa Paulo Cordeiro. É o que vamos ver.

(continua...)

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