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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Ora! E o meu talento coreográfico, e a minha voz de contralto, a minha beleza, e o meu espírito, não valem tanto como a tua força e o teu cão?!

No dia seguinte, Filomena estava também contratada. Esperariam apenas que se restabelecesse completamente para metê-la em serviço.

— Diabo era se iam encontrar na platéia algum velho conhecido dos bons tempos!... Ainda se fosse eu só!... pensava o Borges. Mas a questão é minha mulher!

O empresário cortou essa dificuldade lembrando que Filomena, para não ser conhecida, podia muito bem se disfarçar em índia, pondo uma cabeleira e pintandose de cabocla, e que o Borges, ainda com mais facilidade podia caracterizar-se de inglês. — Um pouco de vermelhão, um par de suíças ruivas, e aí teriam o mais legítimo e completo atleta deste mundo! Quanto ao Urso — pouco seria necessário para reduzi-lo a um urso verdadeiro.

Ficou tudo combinado.

Borges lutaria com a sua fera e com os homens que se apresentassem; faria exercícios de força, suspenderia barras de ferro, carregaria e dispararia uma peça ao ombro, jogaria enormes balas de cinco arrobas, etc... etc... Filomena dançaria vários passos difíceis e cantaria os seus tangos e as suas cançonetas.

Convinha é que ela se restabelecesse quanto antes, para poder abandonar aquela maldita estalagem e cuidar dos primeiros ensaios. Felizmente a cura foi rápida e, graças aos novos recursos, de que dispunham, Filomena, a primitiva, a formosa, a deslumbrante Filomena Borges, surgiu da cama ainda mais bela, mais petulante, como se a idéia de farandolagem que a esperava lhe fizesse ressaltar os encantos, ajuntando-lhes uma nota diabólica de desordem e de boêmia.

O empresário esfregava as mãos de contente, quando a viu no dia da mudança. Ou ele muito se enganava, ou aquela mulherzinha ia fazer uma revolução no público!

Principiaram os ensaios, logo depois que saíram da estalagem. Filomena, as primeiras tentativas, revelou uma tal habilidade para a sua nova profissão, que o Bela ficou deveras encantado.

Ninguém seria capaz de dançar e cantar um tango brasileiro com mais graça nem com mais originalidade.

Em corpo algum de mulher diziam tão bem as penas sensuais da tanga, as axorcas orientais e o emplumado e pitoresco cocar indígena.

— Achei a sorte grande, não há dúvida! considerava o Bela com os seus botões.

É que, além de Filomena, o Borges enchia-lhe as medidas. A luta deste com o Urso faria furor! O cão efetivamente, depois de certos arranjos no focinho, nas patas e na cauda, não deixava, nem de leve, suspeitar a sua modesta procedência.

Espalharam-se logo por todas as esquinas imensos cartazes, anunciando os "dois célebres artistas, que acabavam de chegar de Paris, contratados para o Pavilhão Chinês".

Pavilhão Chinês era o circo de Bela.

"— Grande sucesso do dia! A linda Vênus Americana, o invencível Hércules Inglês e o indomável e terrível Urso Negro"...

Acompanhava esses nomes um pomposo programa de espetáculo, onde vinham as mais provocadoras considerações a respeito daquelas três celebridades.

Apesar, porém, de tudo isso e das bandeiras e luminárias com que o Bela enfeitou seu pavilhão, a estréia dos novos artistas não foi muito concorrida. Mas, da segunda noite em diante, a formosura irresistível de Filomena principiou a atrair extraordinária concorrência.

Não tardou a rebentar em toda a cidade um entusiasmo apopléctico por aquela Vênus cor de amêndoa, que parecia ter furtado às serpentes do Brasil o segredo de suas curvas sensuais, quando ao som dos lundus e das habaneras, quebrava e retorcia o corpo, como numa agonia de amor.

A Faculdade de Direito em peso não abandonou mais as galerias do Pavilhão Chinês: os jornais acadêmicos apareceram repletos de artigos, crônicas, versos, o diabo! a respeito de Filomena. E o povo, o grosso povo, acudia de todos os lados, a um mil réis por cabeça.

Ah! mas Filomena tinha um corpo admirável e excepcionalmente correto. Ela não punha espartilhos e, com uma simples camisa de meia cosida à pele, principiava a sapatear, a torcer-se toda aos gemidos das habaneras, fazendo e desfazendo as curvas magnéticas dos rins, expondo corajosamente a pureza grega de sua cintura elástica e vibrante, como se a alma de uma danseuse da Grande ópera tivesse tido a fantasia de encarnar-se num dos velhos mármores do Partenon.

Era um delírio, quando a banda de música rompia o tango, e Filomena, vestida de índia, saltava ao meio do circo, a jogar o corpo para a direita e para a esquerda, ora num pé, ora no outro, os braços no ar, a cabeça bamba, a boca a sorrir, os olhos a requebrarem-se.

— Bravo! Bravo a Vênus! Quebra! gritavam de todos os cantos.

E choviam flores. E os chapéus, os lenços e as bengalas juncavam o tapete que ela pisava.

(continua...)

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