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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Hortênsia voltou-se para ele, ia talvez desenganá-lo; mas a orquestra, que havia emudecido depois da quadrilha, deu sinal par a “valsa”. Era o Danúbio de

Strauss.

O rapaz ergueu-se como um soldado que ouvisse tocar a rebate.

Ela não resistiu, levantou-se de um salto e entregou-lhe a cintura.

Dançaram. A princípio vagarosamente: depois, como a música se acelerasse, Amâncio arrebatou-a. Ela deixou-se levar, a cabeça descansada nos ombros dele, as mãos frias, a respiração doida.

A música redobrou de carreira.

Foi então um rodar convulso, frenético: a casa, os móveis, as paredes, tudo girava em torno deles.

Hortênsia dançava tão bem como o rapaz. Os dois pareciam não tocar no chão; os passos casavam-se como por encanto; as pernas gravitavam em volta uma das outras com precisão mecânica.

Encheu-se a sala de pares. Amâncio fugiu com Hortênsia, sem interromper a valsa; pareciam empenhados numa conjuntura amorosa. Ela arfava sacudindo o colo com a respiração; os seus braços nus tinham uma frescura úmida; os olhos amorteciam-se defronte dos dele; não podia fechar a boca, e seu hálito misturava-se ao hálito fogoso do estudante.

De repente, Amâncio parou exausto. Ouvia-se-lhe de longe as respiração.

— Não! não! balbuciava ela, quase sem poder falar. — Ainda! Mais um pouco!

E abraçaram-se e novo, freneticamente.

Quando parou a música Hortênsia caiu sobre um divã pelos braços de Amâncio.

Não podia dar uma palavra; não podia abrir os olhos. Sua respiração parecia longos suspiros contínuos e estalados.

Vários cavalheiros se aproximaram.

— Ficou muito fatigada?...Perguntou Amâncio, inclinando-se sobre ela, a mão apoiada nas costas do divã.

Hortênsia não respondeu. Cobriu o rosto com o lenço de rendas e continuou recostada. Foi a voz do marido que a despertou.

— Que loucura e esta, Neném?...Perguntou ele sorrindo com o seu bom ar de homem honesto.

Ela sorriu também, e pediu desculpas com o olhar.

— Sabes que te faz mal, para que valsas?...

Hortênsia soltou uma risadinha de intenção e disse baixo: — Não é o mal que me faz que te dá cuidado...

— Como assim?...

— Ora, é que tu não gostas muito de me ver valsar...

— Porque te faz mal, filha!...

— É só por isso? Afianças que não tens outro motivo?

Campos respondeu com um movimento de ombros.

—Olha lá!...ameaçou a bonita senhora, sacudindo um dedinho da mão direita.. — Olha que sou capaz de ,hoje em diante, não perder uma só valsa!... Ele repetiu o movimento de ombros, e acrescentou:

—Isto é lá contigo, filha; a saúde é tua, faze o que entenderes, ora essa!

Algumas pessoas perceberam o seu mal humor e riram com disfarce.

Nessa ocasião, Amâncio encostado ao bufete, pedia que lhe servissem um grogue à americana

* * *

— Está retemperando a fibra? Perguntou-lhe um sujeito magrinho, elegante, meio calvo, a bater-lhe amigavelmente no ombro.

O estudante voltou-se apressado e, logo que viu o outro, exclamou:

— Oh! O Dr. Freitas? Como passou? Não sabia que estava também por cá!

Freitas respondeu com a sua voz gasta- que chegara havia pouco; não lhe fora possível vir antes; tivera que acompanhar o enterro de um parente. — Coitado! cacete até depois de morto, três necrológios de hora e meia cada um!...Ah! os parentes! Os parentes eram uma desgraçada invenção, principalmente se não deixavam alguma coisa!

E, depois de retesar o peito e puxar a gola da casaca: — Mas então como ia o Sr. Amâncio de Vasconcelos?...Pela fisionomia jurava-se que tinha saúde para dar e vender, e, pelos atos, não parecia menos disposto, porque o Freitas presenciara a conversa do amigo com Hortênsia.

E rindo: — Homem, faz você muito bem! Aproveite enquanto está no tempo! Se eu tivesse a sua idade, com a experiência de que disponho hoje, não havia de proceder como procedi! Oh! Aquele aforismo tem muito fundo! “Si Jeunesse savait...”

E a olhar para os pés, com um gesto cheio de tédio: — Gostei de o ver na valsa, gostei seriamente! Ah! Eu é que já não sou homem para estas coisas! Aceito tudo, menos o que me obrigue à fadiga!..

Amâncio fez-se modesto; negava que dançasse bem; mas o outro, em vez de insistir nos elogios, como esperava ele, perguntou-lhe muito descansadamente por que razão não lhe apareceu depois da primeira visita?

O estudante desculpou-se com a falta de empo e o excesso de estudo. Havia ,porém, de aparecer, mais tarde.

As suas relações com o Dr. Freitas procediam de uma carta de recomendação, que um amigo do velho Vasconcelos lhe arranjara. Freitas era uma excelente amizade para qualquer estudante pouco escrupuloso; dispunha de ótimas relações, que podiam servir de empenho nas épocas apertadas de exame.

(continua...)

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