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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Não me compreendeu, Aurélia; referia-me a um partido vantajoso que de certo aparecerá, logo que esteja livre. 

- Pensa então que basta uma palavra sua para restituir-me a liberdade? Perguntou a moça com um sorriso. 

- Sei que a fatalidade que nos separa não pode romper o elo que prende nossas almas, e que há de reuní-las em mundo melhor. Mas Deus nos deu uma missão neste mundo, e temos de cumpri-la. 

- A minha é amá-lo. A promessa que o aflige, o senhor pode retirá-la tão espontâneamente como a fez. Nunca lhe pedi, nem mesmo simples indulgência, para esta afeição; não lha pedirei neste momento em que ela o importuna. 

- Atenda, Aurélia! Lembre-se de sua reputação. Que não diriam se recebesse a corte de um homem, sem esperança de ligar-se a ele pelo casamento? 

- Diriam talvez que eu sacrificava a um amor desdenhado um partido brilhante, o que é uma... 

A moça cortou a ironia, retraindo-se: 

- Mas não; faltariam à verdade. Não sacrifiquei nenhum partido; o sacrifício é a renúncia de um bem; o que fiz foi defender a minha afeição. Sejamos francos: o senhor já não me ama; não o culpo, e nem me queixo. 

Seixas balbuciou uma desculpas e despediu-se. 

Aurélia, demorou-se um instante na rótula, como costumava, para acompanhar ao amante com a vista até o fim da rua. Se Fernando não estivesse tão entregue à satisfação de haver adquirido sua liberdade, teria ouvido no dobrar da esquina o eco de um soluço. 

No dia seguinte D. Emília recebeu de Seixas uma dessas cartas que nada explicam, mas que em sua calculada ambigüidade exprimem tudo. Compreendeu a viúva ao terminar a leitura do logogrifo epistolar, que estava roto o projetado casamento, e estimou o resultado. A boa mãe nutria ainda a esperança de persuadir a filha a aceitar a mão de Abreu. 

Por esse tempo todo entrou Torquato Ribeiro a freqüentar a casa de D. Emília. Soubera ele do procedimento que Seixas tivera com a viúva; e a conformidade de infortúnio o atraiu. Referiu a Aurélia a inconstância de Adelaide, que atribuiu à sua pobreza. 

A moça o ouvia com meiguice, e o consolava; mas apesar da intimidade que se estabeleceu entre ambos, nunca lhe falou de seus próprios sentimentos. Tinha o pudor de sua tristeza, que não lhe consentia confidências. Seria altivez; mas ela a vestia de um recato modesto e lhano. 

As exprobações de Ribeiro contra a infidelidade de que fora vítima, haviam lançado no espírito de Aurélia uma suspeita acerba. Seria a abastança do Amaral que atraíra Fernando, e não o amor de Adelaide? 

A moça repeliu constantemente essa idéia, que lhe imbuíram os ressentimentos de 

Ribeiro; mas chegou o momento em que lhe arrancaram a dúvida consoladora. 

Recebeu uma carta anônima. Comunicavam-lhe que Seixas a tinha abandonado por um dote de trinta mil cruzeiros. Acabando de ler estas palavras levou a mão ao seio, para suster o coração que se lhe esvaía. 

Nunca sentira dor como esta. Sofrera com resignação e indiferença, o desdém e o abandono; mas o rebaixamento do homem, a quem amava, era suplício infindo, de que só podem fazer idéia os que já sentiram apagarem-se os lumes d'alma, ficando-lhes a inanidade. 

Debalde Aurélia refugiou-se nos sonhos do seu primeiro amor. A degradação de Seixas repercutia no ideal que a menina criara em sua imaginação, e imprimia-lhe o estigma. Tudo ela perdoou a seu volúvel amante, menos o tornar-se indigno do seu amor. 

Que pungente colisão! Ou expelir do coração esse amor que tinha decaído, e deixar a vida para sempre erma de um afeto; ou humilhar-se adorando um ente que se alviltara, e associando-se à sua vergonha. 

A notícia do procedimento atribuído a Seixas, não passava de uma denúncia anônima, que podia ser inspirada pela malignidade. 

Não obstante, Aurélia não hesitou em acreditá-la; uma voz interior dizia-lhe que era aquela a verdade. 

Poucas horas depois aproximando-se da rótula para abrí-la à criada, viu por entre as grades passar o Lemos, que olhava para a casa com ares garotos. 

Atravessou-lhe o espírito a idéia de que era o autor da carta; e confirmou-se nela quando notou os manejos com que o velho nos dias subseqüentes tentou inutilmente apanhá-la à janela. 

Como esperava D. Emília, Eduardo Abreu voltou apenas soube da retirada de Seixas. Aurélia recebeu-o cheia de reconhecimento pela afeição que havia inspirado a esse moço e de admiração por seu nobre caráter. 

(continua...)

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