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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— A sua filha escreveu-me? — disse Teresa ao João da Cruz. — Sim, senhora, aqui está a carta.

E depositou na roda a carta em que a abadessa reparou, e disse, sorrindo:

— Muito engenhoso é o amor, Teresinha... Permita Deus que as noticias da rapariga da aldeia te alegrem o coração; mas olha, filhinha, não cuides que a tua velha tia é menos esperta que o pai da rapariga da aldeia.

Teresa respondeu com beijos às jovialidades carinhosas da santa senhora, e sumiu-se a ler a carta, e a responder-lhe. Entregando a resposta, disse ela ao ferrador:

— Não vê ai sentada naquela escadinha uma pobre?

— Vejo, sim, senhora, e conheço-a. Como diabo veio para aqui esta mulher? Cuide que depois da esfrega que lhe deu o hortelão, a pobrezinha não tinha pernas que a cá trouxessem! A mulher pelos modos tem fibras daquela casta!

— Fale baixo — tornou Teresa. — Pois olhe... quando trouxer as cartas, entregue-lhas a ela, sim? Eu já a mandei à cadeia; mas não a deixaram lá entrar. — Bem está, e o arranjo não é mau assim. Fique com Deus, menina.

Esta boa nova alegrou Simão. A providência divina apiedara-se dele naquele dia. O restaurar-se o juízo de Mariana e a possibilidade de corresponder-se com Teresa eram as máximas alegrias que podiam baixar do céu ao seu cerrado infortúnio.

Exaltara-se Simão em graças a Deus, na presença de João da Cruz, que arrumava, no quarto, uns móveis que comprara em segunda mão, quando este, suspendendo o trabalho, exclamou:

— Então vou-lhe dizer outra coisa, que não tinha tenção de lhe dizer, para o apanhar de supetão.

— Que é?

— A minha Mariana veio comigo, e ficou na estalagem porque não se podia bulir com dores; mas amanhã ela cá está para lhe fazer a cozinha e varrer a casa.

Simão, reconcentrando o indefinível sentimento que esta noticia lhe causara, disse com melancólica pausa:

— É, pois, certo que a minha má estréia arrasta a sua desgraçada filha a todos os meus abismos! Pobre anjo de caridade, que digna tu és do céu!

— Que está o senhor ai a pregar? — interrompeu o ferrador. — Parece que ficou a modo de tristonho com a notícia!...

— Senhor João — tornou solenemente o preso — não deixe aqui a sua querida filha. Deixe-ma ver, traga-a consigo uma vez a esta casa; mas não a deixe cá, porque eu não posso tolher o destino de Mariana. Como há de ela viver no Porto, sozinha, sem conhecer ninguém, bela como ela é, e perseguida como tem de ser?!

— Perseguida! To carocha! Não que ela é mesmo de se lhe dar que a persigam!... Que vão para lá, mas que deixem as ventas em casa. Meu amigo, as mulheres são como as pêras verdes: um homem apalpa-as, e, se o dedo acha duro, deixa-as, e não as come. É como é. A rapariga sai à mãe. Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava tentando, dei-lhe um dia um beliscão numa perna. E vai ela põe-se direita comigo, e deu-me dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Mariana!... Aquilo é d'a pele de Satanás! Pergunte o senhor, se algum dia falar com aquele fidalguinho Mendes, de Viseu, a troçada que ele levou com as rédeas da égua, só por lhe bulir na chinela quando ela estava em cima da burra!

Simão sorriu ao rasgado panegírico da bravura da moça, e orgulhou-se secretamente dos brandos afagos com que ela o desvelara em oito meses de quase continuada convivência.

— E vossemecê há de privar-se da companhia de sua filha? — insistiu o preso.

— Eu lá me arranjarei como puder. Tenho uma cunhada velha, e levo-a para mim para me arranjar o caldo. E vossa senhoria pouco tempo aqui estará... O senhor corregedor lá anda a tratar de o pôr na rua, e que o senhor sai, cá para mim são favas contadas. E assim com'assim, viu dizer-lhe tudo duma feita: a rapariga, se eu a não deixasse vir para o Porto, dava um estouro como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ela tem paixão d'alma por vossa senhoria, isto; tão certo como eu ser João. É a sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixá-la, que pelo senhor Simão não lhe há de vir mal, ou então já não há honra neste mundo.

Simão lançou-se aos braços do ferrador, exclamando:

— Pudesse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!

(continua...)

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