Por Lima Barreto (1921)
Se nós tivéssemos um Conselho Municipal, se apelaria para ele. Mas o tal conselho que temos não ama a cidade, nem é composto de gente dela. O único carioca que lá existe e pode ter algum amor pelo Rio de Janeiro, é o coronel Brandão; mas esse mesmo é português de nascimento. Os outros são cubanos, mexicanos, hondurenses – gente que, por bem ou pela força, tem de gravitar em torno da republica do dólar. É inútil esperar qualquer coisa dessa gente que, não contente de estar sob o guante americano, ainda procura narcótico jesuítico para se anular, e o vai impingir às crianças, nas escolas, à força do poder do Estado, julgando legítimo isso, porque sofrera também império semelhante que destruiu nela a rebeldia indispensável ao progresso humano, mas a deixou, em compensação, viver à tripa forra.
Estão se cevando, mas é pena que o seja inútilmente... A antropofagia já passou de moda em toda a humanidade..
Dessa forma, não temos nós, cariocas, que amamos o nosso lindo Rio de Janeiro, para quem apelar e o senhor Taumaturgo poderá impunemente arranhar – só, não! – furar céu, a menos que Deus não faça, como fez com os atrevidos da torre de Babel; castigá-lo bem castigado! É ainda uma esperança...
Hoje, Rio, 10-7-1919.
NO PRIMOR DA ELEGÂNCIA
– Pois foi mesmo uma coisa que não sei como qualificar.
– Mas, nunca tinhas jogado?
– Tinha; mas, em família, a vinte e dez réis o tento. Assim a sério, nunca! E ainda por cima ficar devendo dois contos... Livra!
– Já os pagaste?
– Não; não foi preciso.
– Que diabo! Não te entendo!
– Queres ouvir a história tintim por tintim?
– Quero.
– Pois então ouve lá.
– Estou ouvindo:
– Andava eu muito arrebentado, devido a minha mania poética. Tinha empenhado os meus vencimentos – uma grande parte, bem entendido – a um agiota, para publicar o meu poema Luzes no Nevoeiro. Lembras-te?
– Lembro-me. Por sinal que...
– Não fez lá grande feio, até... Bem! Continuo: assim, encalacrado, o que restava dos vencimentos, era para comer e morar. Pacientemente, até com grande orgulho íntimo, por me ter heroicamente sacrificado às letras, eu ia passando meses, quando certo dia o meu colega de repartição, Segadas, perguntou-me: “Oh! Barcelos! Você nunca jogou no bicho?” Fiz um esforço de memória e respondi: “Uma vez, há muito tempo”. Segadas não se contentou com a minha resposta e disse-me ainda: “Escreva aí, num papel, um número de quatro algarismos, qualquer, compreendeu?’ “Para que é?” perguntei. “Ora!” fez ele rindo-se. “Você sabe bem para o que é. Querem ver que você está se fazendo de tolo comigo?” Desconfiei que fosse para isso, mas Segadas era doutor em bicho. Comprava Mascote, Talismã e até uma revista mensal – O Mistério da Sorte – ele assinava. Como é que então, me vinha pedir palpite, a mim que era néscio na bicharada? Enfim... Escrevi o tal milhar; e dei-lhe o papel com ele escrito. Examinou, abalou a cabeça com ar de dúvida e por fim exclamou: “Vamos ver... Dê-me aí um milréis – você tem?” Tinha e dei-o. Saí da repartição, sem mais me lembrar do caso. O meu espanto estava reservado para o dia seguinte. Assinei o ponto e, quando entrei na seção, ele veio ao meu encontro e fez com um ar muito expressivo, mas que eu não sei como qualificar: “Tem pêlo, Barcelos! Ganhaste três contos e pouco”, acudiu ele. Suspendi a respiração; e explicou-me então ele que eu tinha, de sociedade com os dele, distribuído aqueles dez tostões no milhar, na centena, na dezena, no grupo; e meu lucro estava ali.
Passou-me a bolada.
– Continuaste trabalhando?
– Qual! Pedi licença e saí. Meditei muito no que devia fazer. Pensei em pagar o agiota, mas pagá-lo, era dar-lhe lucro, pois o desconto seria insignificante e eu pagaria quase o mesmo que devia pagar daí a um ano e tanto... Não valia a pena! Não paguei e comprei roupas novas e outros aviamentos chics. No fim de vinte dias, o meu tesouro estava quase reduzido a pouco menos de três contos, embora a minha biblioteca se houvesse enriquecido e eu andasse no primor da elegância, pela avenida, teatros, circos de esporte etc. mas, sem sorte alguma. Diabo! fiz eu de mim para mim. Ninguém é profeta em sua terra. Preciso dar um passeio. Tinha lido uns versos de Olegário Mariano sobre Poços de Caldas e decidi-me ir até lá passar uns tempos, isto é, um mês ou dois, se tanto. Fui. Passei em São Paulo, onde me demorei uma semana. Queria ficar mais tempo. Aquele recato de São Paulo, aquela sua decência e pudicícia faziam evolar um bouquet186 capitoso da taça dos seus prazeres e me inebriava. De noite, com as portas fechadas, no interior de alegres casas, era como se a linda cidade me dissesse: parecer não é ser. Mas... cumpria ir a Poços de Caldas e o fiz com esforço. Deixei a minha Cápua e lá fui para a cidade das águas de Juvência. Digo-te com franqueza que a cidade em si não me agradou. Aquele tom híbrido de roça e cidade, ainda mais acentuado com o urbano pavonear dos aquáticos, não era lá coisa de despertar-me idéias de beleza.
– E a paisagem?
– Ora! Para quem sai do Rio de Janeiro!!
– Em que hotel estiveste?
– Um bem catita e cheio de si, mas de cujo nome não me lembro. O que eu sei, é que durante a primeira semana, mal troquei cumprimentos com os outros hóspedes.
– Não jogaste?
– Não. Mas dei uma volta pela sala da roleta e observei o cavalheirismo dos banqueiros de lá, emitindo fichas mais baratas para as senhoras. É galante!
– Senhoras?
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.