Por Aluísio Azevedo (1884)
— Bom e fiel amigo, acrescentou o Borges, sem se fartar de contemplá-lo. Bem se vê que não és um homem! Injusto fui eu em não contar contigo na miséria, apesar de te haver abandonado no tempo da minha ventura! Mas que te hei de dar agora, fiel camarada; eu, que nada tenho para mim?!... Em todo caso, sinto-me mais forte! Vamos lá — havemos de viver!
E, dizendo isto, levantou-se, passou ainda uma vez a mão na cabeça do Urso e seguiu na direção do hotel. Talvez tenha fome!... pensava ele. Mas é impossível que eu não descubra alguma coisa para lhe dar.
 porta da estalagem, quando o Borges se aproximou com o Urso, estava o empresário da companhia de saltimbancos, de pernas cruzadas, a fumar cachimbo.
Era um italiano calvo, muito magro, alto, de grandes barbas negras, chamava-se Bela.
— Bom animal para um circo! pensou ele, atentando no Urso; se o tivessem ensinado valeria quanto pesa!
E os olhos do funâmbulo cresceram sobre o cão.
— Quer dez mil réis pelo bicho? perguntou, tocando no ombro do Borges.
Este fitou o italiano, sem responder.
— Dou-lhe quinze.
— Não, respondeu o outro secamente, penetrando já na estalagem.
— Vinte.
— Não! não! disse o Borges, fugindo a uma idéia que lhe acabava de atravessar o pensamento. — Não! seria infame!
— Pois se quiser vinte, é meu; mais não dou! gritou ainda da porta o empresário.
Borges já não o podia ouvir, porque a acrobata americana vinha de lhe comunicar o estado de Filomena.
Correu ao quarto da mulher. Encontrou-a estendida no leito, a gemer, a voltar-se incessantemente de um lado para outro.
— Que é isto?! perguntou ele, desvairado.
E, mal disseram a causa do acidente, precipitou-se, como louco, para a sala de jantar. O estalajadeiro, assim que o viu, calculou o risco que corria, e tratou de fugir; mas só teve tempo de se esconder dentro de um armário despratelado, que jazia a um canto da sala.
Este jogo de cena fez alguma bulha e atraiu todos os de casa. Quiseram logo impedir que o Borges se aproximasse do armário.
Vão esforço. João Touro, com o primeiro arranco, lançou por terra os que o tentavam segurar e atirou-se contra o armário.
Não se deu ao trabalho de abri-lo, abarcou-se sobre o peito, ergueu-o, e, depois de sacudi-lo duas ou três vezes, arremessou-o pela sala, varando tudo que estava no caminho.
Um clamor estrepitoso rebentou em volta dele. No meio do barulho, ouviamse os gritos do estalajadeiro, o ladrar do Urso, que acompanhava aos saltos os movimentos do amo e, de todos os lados, um coro terrível de exclamações cheias de assombro, de raiva e de terror.
Mas os que ficaram machucados logo ao primeiro encontro acudiam já contra o Borges, armados de cadeira; a companhia em peso, tomando as dores pelo dono da casa, não tardou igualmente a lançar-se sobre ele, e, em menos de dois segundos, travou-se o mais formidável sarilho.
Foi uma coisa horrorosa!
O Borges, fora de si, ia agarrando o que lhe caía nas mãos e arremessando para frente. Voaram mesas, cadeiras, estantes, aparadores, garrafas, tudo!
A sala, em breve, ficou completamente vazia, e ele, só ele, passeava de um para outro lado, rugindo e fungando como um verdadeiro touro.
CAPÍTULO XV
COISAS EXTRAORDINÁRIAS
— Foi o empresário da companhia, o Belo, o primeiro que se animou a voltar à sala... Mas não trazia aspecto de briga; ao contrário, aproximou-se do Borges com toda a calma, e disse-lhe em voz baixa:
— Tenho uma proposta a fazer-lhe...
— Que é?! gritou o marido de Filomena.
— Contratá-lo para a minha companhia. O senhor, com a força de que dispõe e com o seu Urso, pode fazer chicanas. Dou-lhe duzentos mil réis por mês. Aceita?
— Aceito, respondeu o Borges, sem vacilar. Mas com a condição de que o senhor pagará imediatamente o que devo nesta casa.
— Está dito, respondeu o italiano. É só fecharmos o contrato; isso faz-se num instante.
E o estalajadeiro, uma vez embolsado, declarou que retirava o que dissera pela manhã, e pediu que lhe perdoassem o mal que havia causado e afiançou que sua casa e os seus serviços estavam sempre às ordens de Borges.
Este tratou logo de pôr a esposa ao corrente do passo que acabava de dar.
— Magnífico! exclamou ela. Oh! magnífico! Contanto que o italiano esteja disposto a me arranjar igualmente um lugar na sua companhia.
— Heim?! Um lugar... um lugar para ti? Estás gracejando com certeza!...
— Juro-te que não. E desde já te previno de que só nesse caso consentirei que cumpras o teu contrato!
— Mas, meu amor, aquilo não te pode convir... do que iria te encarregar numa companhia de acrobatas?! É preciso ver a coisa por este lado!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.