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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Com efeito, se ele em outra qualquer coisas não conseguiu a perfeição , na dança ao menos nada se lhe tinha a desejar; dançava admiravelmente, por vocação, por índole, por um jeito especial do corpo, e com um amaneirado gracioso que sabia dar aos braços, à cabeça e às pernas. Pode-se dizer que na valsa dispunha de um estilo próprio, original.

Quando, sacudido pela música, os olhos meio cerrados, a boca meio aberta, arremessava-se com a dama no turbilhão da sala, tinha alguma coisa de pássaro que desprende o vôo. Ficava até mais bonito; os cabelos crespos tremiam-lhe romanticamente sobre a testa; o cansaço dava ao moreno de suas faces uma palidez misteriosa e doce. E, com o braço direito engranzado à cintura do par, o esquerdo repuxando nervosamente a mão que a dama estendia sobre a sua, ele empertigava-se todo com delícia, a fechar os olhos e a rodar extasiado, embevecido como se fora arrebatado por entre nuvens de arminho.

No seu temperamento, excessivamente lascivo, gozava com sentir ligado ao corpo precioso de uma mulher de estimação; comprazia-se em beber-lhe o hálito acelerado pela dança, embebedava-se com respirar-lhe os perfumes agudos do cabelo e o infiltrante cheiro animal da carne.

Afinal, depois de uma valsa, estonteado e ofegante, atirou-se ao canto do divã em que estava Hortênsia.

Confessava-se prostrado, a limpar o suor do pescoço e da fronte. Fora imensa a valsa e ele cansara três pares, que se abateram inúteis, como as espadas de Ney na batalha de Waterloo.

— Apre! Disse.

As senhoras olhavam-no já com respeito, acompanhavam-lhe os menores movimentos com enorme interesse.

— Muito bem! Muito bem! Cochichou-lhe a mulher do Campos. - Ignorava que o senhor fosse tão forte na valsa!

E começaram a conversar sobre o mal que se dançava ultimamente. Ela declarou que uma das coisas que mais apreciava era uma boa valsa. Isso desde criança; no colégio, às vezes, as meninas passavam a hora do recreio dançando umas com as outras.

— Ninguém o diria...considerou Amâncio, fazendo-se muito seu camarada.– A senhora hoje só tem querido dançar quadrilhas.

Ela respondeu com um risinho significativo.

— Quer uma valsa comigo?.. perguntou o rapaz, em segredo, requebrando os olhos.

Não posso! Disse ela, quase com um suspiro. — Aceitaria de bom grado, mas não posso...

— Valha-me Deus! Por quê?

Porque...

Hortênsia sorriu de novo, sem ânimo de confessar a verdade. — o marido não gostava de a ver valsar. Também não se podia desculpar, dizendo que não sabia, porque ainda há pouco dissera justamente o contrário; afinal sem fazer empenho de ser acreditada acrescentou gracejando.

— Porque... porque me faz mal...

Amâncio prometeu que a conduziria devagar e que não dançaria longo tempo seguido; aceitava todas as condições, contanto que desfrutasse a suprema ventura de lhe merecer uma valsa.

Hortênsia não respondeu; tinha o olhar esquecido sobre um grande quadro que lhe ficava defronte suspenso da parede. E abanava-se, lentamente, como seguindo o vôo de um vago pensamento voluptuoso.

O quadro representava uma cena de Fausto e Margarida, no jardim (um longo beijo apaixonado que parecia soluçar entre a folhagem do painel. O encantado filósofo tomava nas mãos brancas a loura cabeça de sua amante, e sorvia-lhe alma pelos lábios. O sol morria ao longe, dourando a paisagem, e um casal de pombos arrulhava à sombra azulada de uma planta).

Hortênsia olhava para isso, enquanto, ao gemer das rabecas, cruzavam-se na sala os pares, marcando contradanças. O aroma das flores, que se fanavam em grandes vasos japoneses, misturava-se ao cheiro das mulheres, e penetrava a carne com a sutilidade de um veneno lento e delicioso como o fumo do charuto. Os ombros lácteos das senhoras, expunha-se nus à grande claridade artificial do gás; as jóias faiscavam; os olhos desfaleciam, e um calor gostoso ia infirmando os sentidos e entorpecendo a alma.

— Então?...pediu Amâncio, pondo doçura na voz, — dance comigo, sim?...Faça-me a vontade. Eu sentiria nisso tanto gosto...

E todo ele suplicava aquele obséquio, com o empenho apaixonado de que pede uma concessão de amor.

Ela dizia que não, meneando a cabeça; mas, um sorriso que se lhe escapava dos lábios, dizia o contrário.

— Então!...sim?...sim? um bocadinho só! Insistia o estudante, a devorá-la com os olhos.

Estava ainda cansado; a voz não lhe vinha inteira, mas quebrada, como por um espasmo; os olhos dele arqueavam-se luxuriosamente; as pernas principiavamlhe a tremer

— O que lhe custa à senhora dançar um pouquinho comigo?

E, vendo que ela não respondia, balbuciou em tom magoado, de criança ressentida:

— Bem, bem, não lhe peço mais nada, não a importunarei de hoje em diante. Desculpe!

(continua...)

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