Por José de Alencar (1875)
Sem este incidente, ficaria a debater-se na terrível colisão, a que o haviam trazido os acontecimentos, esperando do tempo uma solução que seu ânimo indolente não se animaria a precipitar.
Aquele pequeno desvio porém o lançara fora do torvelinho, submetendo-o a uma nova corrente que ia apoderar-se dele e conduzí-lo para longe.
O Torquato Ribeiro amava sinceramente Adelaide. A volubilidade da moça ofendeuo, ele retirou-se da casa deixando o campo livre a seu adversário, que não carecia dessa vantagem. Amaral, dócil aos conselhos do Lemos, tratou, como dizia o velho, de bater o ferro quente.
Seixas convidado a jantar num Domingo em casa do empregado, fumava um delicioso havana ao levantar-se da mesa coberta de finas iguarias, e debuxava com um olhar lânguido os graciosos contornos do talhe de Adelaide, que lhe sorria do piano, embalando-o em um noturno suavíssimo.
Amaral sentou-se ao lado; sem preâmbulos, nem rodeios, à queima-roupa, ofereceulhe a filha com um dote de trinta mil cruzeiros.
Seixas aceitou. Esse projeto de casamento naquele instante era a prelibação das delícias com que sonhava sua fantasia, excitada menos pelo champanha, do que pela sedução de Adelaide.
A principal razão que moveu Seixas foi outra porém. Fez como os devedores, que se liberam dos compromissos, quebrando.
Receoso de sua coragem para recuperar a isenção, penhorou-se a outros, que o reclamassem e defendessem como coisa sua.
VI
Aurélia passava agora as noites solitárias.
Raras vezes aparecia Fernando, que arranjava uma desculpa qualquer para justificar sua ausência. A menina que não pensava em interrogá-lo, também não contestava esses fúteis inventos. Ao contrário buscava afastar da conversa o tema desagradável.
Conhecia a moça que Seixas retirava-lhe seu amor; mas a altivez do coração não lhe consentia queixar-se. Além de que, ela tinha sobre o amor idéias singulares, talvez inspiradas pela posição especial em que se achara ao fazer-se moça.
Pensava ela que não tinha nenhum direito a ser amada por Seixas; pois toda a afeição que lhe tivesse, muita ou pouca, era graça que ela recebia. Quando se lembrava que esse amor a poupara à degradação de um casamento de conveniência, nome com que se decora o mercado matrimonial, tinha impulsos de adorar a Seixas, como seu Deus e redentor.
Parecerá estranha essa paixão veemente, rica de heróica dedicação, que entretanto assiste calma, quase impassível, ao declínio do afeto com que lhe retribuía o homem amado, e se deixa abandonar, sem proferir um queixume, nem fazer um esforço para reter a ventura que foge.
Esse fenômeno devia ter uma razão psicológica, de cuja investigação nos abstemos; porque o coração, e ainda mais o da mulher que é toda ela, representa o caos do mundo moral. Ninguém sabe que maravilhas ou que monstros vão surgir desses limbos.
Suspeito eu porém que a explicação dessa singularidade já ficou assinalada. Aurélia amava mais seu amor do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem.
Quem não compreender a força desta razão, pergunte a si mesmo porque uns admiram as estrelas com os pés no chão, e outros levantados às grimpas curvam-se para apanhar as moedas no tapete.
Desde que se comprometeu com Amaral, pensou Fernando em cortar de uma vez o fio que ainda o prendia a Aurélia; nessa disposição repetiu suas visitas.
Em princípio a menina cuidou que Seixas lhe voltava, e encheu-se de júbilo; mas não durou a ilusão. Logo percebeu que não era o desejo de vê-la e estar com ela, o que levava o moço à sua casa; pois os poucos instantes de demora passava-os inteiramente distraído e como perplexo.
- O senhor quer dizer-me alguma coisa, mas receia afligir-me, observou a menina uma noite com angélica resignação.
Fernando aproveitou a ocasião para resolver a crise.
- Meu voto mais ardente, Aurélia, sonho dourado de minha vida, era conquistar uma posição brilhante para depô-la aos pés da única mulher que amei nesse mundo. Mas a fatalidade que pesa sobre mim aniquilou todas as minhas esperanças; e eu seria um egoísta, se prevalecendo-me de sua afeição, a associasse a uma existência obscura e atribulada. A santidade de meu amor deu-me a força para resistir a seus próprios impulsos. Disse uma vez à sua mãe, pressentindo essa cruel situação: Sou menos infeliz renunciando à sua mão, do que seria aceitando-a para fazê-la desgraçada, e condená-la às humilhações da pobreza.
- Essas eu já as conheço, respondeu Aurélia com tênue ironia, e não me aterram; nasci com elas, e têm sido as companheiras de minha vida.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.