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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

A imperícia e negligência lançaram, é verdade, feias nódoas no brilho daquelas páginas, e algumas por infelicidade bem recentes nódoas. As fronteiras onde outrora foi Artigas batido sucessivamente em vários combates, percorreu-as impune há quatro anos o bárbaro paraguaio, desde São Borja até Uruguaiana; e ao cabo dessa afronta, sitiado por forças três vezes superiores, esfaimado e inanido, logrou uma capitulação honrosa. 

Ainda bem que o heroísmo brasileiro acaba de escrever nas laudas selvagens do Paraguai uma grande epopéia. A lembrança daqueles erros do passado, já de todo a apagaram as vitórias memoráveis de Riachuelo, Tuiuti, Curuzu, Humaitá, Itororó, Peribebuí e outras jornadas gloriosas. 

Sete anos havia que na campanha rio-grandense cessara o estrépito das armas. Depois que Buenos Aires, temendo a reação do patriotismo brasileiro afrontado com as tristes jornadas de Sarandi e Itusaingó, pedira a paz, a província de São Pedro gozou de alguma tranqüilidade. Embora às vezes repercutisse na fronteira a agitação dos estados vizinhos, as labutações pacíficas da indústria sucederam geralmente às lides guerreiras. 

Entretanto quem percorresse a campanha no mês de agosto de 1835, observaria certo movimento que não era normal, e desaparecera desde a paz de 1829. Pelas estradas encontrava-se a cada instante gente armada, que ia se reunindo pelo caminho, e formando pequenas partidas; assim como em sentido inverso, famílias que emigravam de um para outro ponto da província. 

O aspecto animado daquela gente, a sofreguidão que se traía em sua marcha, o ar resoluto das fisionomias queimadas pelo suão, eram sintomas bem claros da próxima luta. 

Essa agitação que se propagara por toda a fronteira, desde Jaguarão até São Borja, convergia para as proximidades da capital, mas especialmente para as margens do Piratinim. Aí, ao que parecia, era o ponto de reunião; as próximas estâncias situadas à beira do rio, estavam desde muitos dias cheias de hóspedes e peões, recém-chegados. 

Onde o movimento se fazia mais sentir, era na estrada que, partindo de Porto Alegre como a aorta dessa nascente civilização, se bifurca na Encruzilhada, e lança as duas artérias tibiais uma para Uruguaiana e outra para Jaguarão. Por esta segunda estrada, em um dos últimos dias de agosto, caminhavam alguns viajantes que se dirigiam da vila do Erval à de Piratinim. 

Adiante algumas braças, ia uma moça que teria pouco mais de dezesseis anos, apesar do completo desenvolvimento de sua beleza. A roupa de montar era de ganga; a saia, que se desfraldava em largas dobras, não apagava de todo os contornos das formas graciosas, cujo firme relevo traía-se com o movimento da equitação. O jaquéu justo, talhado à guisa de fardeta curta de soldado e enfeitado de alamares e dragonas de retrós, desenhava com a correção do cinzel antigo um busto encantador. 

Era a moça de um moreno suave, que nos momentos de repouso, em contraste com o jaquéu escuro, se desvanecia; porém quando a agitava alguma comoção, sua cútis velutava-se com o fulvo arminho de uma corça. Nunca sob róseas pálpebras brilharam com tão vivo fulgor, mais lindos olhos crioulos, grandes e rasgados; nem brincou, entre lábios feiticeiros, sorriso mais brejeiro e provocador. 

Sobre o trançado opulento que lhe cingia a nuca, trazia a moça um chapéu verde-claro, de pêlo de seda e copa alta, com uma fita branca e um ramo de rosas por tope. Atualmente esta parte do traje da formosa cavaleira seria um atentado inaudito contra o bom-gosto e tornaria horrível a mais gentil das amazonas, que pelo verão galopam nos passeios de Petrópolis. Naquela época porém era a moda, e em geral a achavam tão bonita, como a das botas que hoje trazem as senhoras. O caso é que o tal chapeuzinho verde, todo enfeitado, dava ao rosto da moça um arzinho pimpão, que enfeitiçava. 

A seu lado ia outra cavaleira mais idosa e cheia de corpo; essa porém montava de escancha como um homem. Era o uso antigo nas províncias do sul. As bandas do vestido aberto de chita, que lhe caíam a um e outro lado, descobriam até o joelho as pernas da gorducha amazona. 

Seguiam a alguma distância dois cavaleiros com um traje ambíguo entre paisano e militar; um deles vestia a farda da antiga milícia; o outro apenas tinha barretina e patrona do mesmo uniforme. Ambos porém traziam sobre os ombros o infalível poncho de pano azul, forrado de pelúcia vermelha. 

Pouco mais era de meio-dia. O sol abrasava, embora a espaços as baforadas da brisa mitigassem a calma. Crestada pelo sol, a macega parecia o pêlo arrepiado de um mula xucra. 

(continua...)

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