Por Camilo Castelo Branco (1862)
Achei-me homem aos dezesseis anos. Vi a virtude à luz do teu amor. Cuidei que era santa a paixão que. absorvia todas as outras, ou as depurava com o seu fogo sagrado.
Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo que eu não possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Teresa, se os meus lábios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quis eu fazer do meu amor o teu opróbrio.
Nunca, Teresa! Nunca, 6 mundo que me condenas!
Se teu pai quisesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer, beijar-lhos-ia. Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser feliz com outro homem, morreria, Teresa!
Mas tu eras sozinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz não devia sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insânia do crime aturde a consciência; não a minha, que se não temia das escadas da forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da sufocação.
Eu esperava a cada hora o chamamento para o oratório, e dizia comigo: falarei a Jesus Cristo.
Sem pavor, premeditava nas setenta horas dessa agonia moral, e antevia consolações que o crime não ousa esperar sem injúria da justiça de Deus.
Mas chorava por ti, Teresa! O travor do meu cálix tinha sobre a amargura as mil amarguras das tuas lágrimas.
Gemias aos meus ouvidos, mártir! Ver-me-ias sacudindo nas convulsões da morte, em teus delírios. A mesma morte tem horror da suprema desgraça. Tarde morrerias, A minha imagem, em vez de te acenar com a palma de martírios, te seria um fantasma levando das tábuas dum cadafalso.
Que morte a tua, ó minha santa amiga!"
E prosseguiu até ao momento em que João da Cruz, com ordem do intendente geral da polícia, entrou no quarto.
— Aqui! — exclamou Simão, abraçando-o. — E Mariana? Deixou-a sozinha?! Morta, talvez!
— Nem sozinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre está atrás da porta... Mariana voltou ao seu juízo.
— Fala verdade, senhor João?
— Pudera mentir!... Aquilo foi coisa de bruxaria, enquanto a mim... Sangrias, sedentos, água fria na cabeça, e exorcismos do missionário, não lhe digo nada, a rapariga está escorreita, e, assim que tiver um todo-nada de forças, bota-se ao caminho.
— Bendito seja Deus! — exclamou Simão.
— Amém — acrescentou o ferrador. — Então que arranjo é este de casa? Que breca de tarimba é esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e alguma coisa em que um cristão se possa sentar,
— Isto assim está excelente.
— Bem vejo... E de barriga? Como vamos nós de trincadeira?
— Ainda tenho dinheiro, meu amigo.
— Há de ter muito, não tem dúvida; mas eu tenho mais, e vossa senhoria tem ordem franca. Veja lá esse papel.
Simão leu uma carta de D. Rita Preciosa, escrita ao ferrador, em que o autorizava a socorrer seu filho com as necessárias despesas, prontificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas com a sua assinatura.
— É justo — disse Simão, restituindo a carta — porque eu devo ter uma legitima.
— Então já vê que não tem mais do que pedir por boca. Eu vou comprar-lhe arranjos...
— Abra-me o seu nobre coração para outro serviço mais valioso — atalhou o preso.
— Diga lá, fidalgo.
Simão pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Teresa de Albuquerque.
— O berzabum parece-me que as arma! — disse o ferrador. — Venha de lá a carta. O pai dela está cá. Já sabia?
— Não.
— Pois está; e, se o diabo o traz à minha beira, não sei se lhe darei com a cabeça numa, já me lembrou de o esperar no caminho e pendurá-lo pelo gasnete no galho dum sobreiro. . . A carta tem resposta? — Se lha derem, meu bom amigo.
Chegou o ferrador a Monchique, a tempo que um oficial da justiça, dois médicos e Tadeu de Albuquerque entravam no pátio do convento.
Falou o aguazil à prelada, exigindo em nome do juiz de fora que dois médicos entrassem no convento a examinar a doente D. Teresa Clementina de Albuquerque, a requerimento de seu pai.
Perguntou a prelada aos médicos se eles tinham a necessária licença eclesiástica para entrarem em Monchique. À resposta negativa redargüiu a abadessa que as portas do convento não se abriam. Disseram os médicos de Tadeu de Albuquerque que era aquele o estilo dos mosteiros, e não houve que redargüir à rigorosa prelada.
Saíram, e o ferrador só então refletiu no modo de entregar a carta. A primeira idéia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:
— Ó senhora freira!
— Que quer vossemecê? — disse a prelada.
— A senhora faz favor de dizer à senhora D. Teresinha de Viseu, que está aqui o pai daquela rapariga da aldeia que ela sabe?
— E quem é vossemecê?
— Sou o pai da tal rapariga que ela sabe.
— Já sei! — exclamou de dentro a voz de Teresa, correndo ao locutório.
A prelada retirou-se a um lado, e disse:
— Vê lá o que fazes, minha filha...
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.