Por Aluísio Azevedo (1882)
— És um canalha! bradou-lhe Leão Vermelho, quando percebeu que Tubarão não lhe contava tudo o que sabia.
— Serei, com mil raios! mas não abro a boca para dizer uma palavra!
— És então o cúmplice daquela miserável?!
— Não! sou o cão que lhe guarda a porta! Ninguém entrará ali para lhe fazer o menor mal!
Ouviu-se então uma gargalhada estranha. E o vulto de Cecília, pálido e transformado, assomou à porta do seu quarto.
Parecia vir da sepultura.
Leão Vermelho recuou assustado, e Tubarão olhou com grande espanto para a figura esquálida, que acabava de surgir no esvazamento da porta.
Cecília parecia um espectro; a magreza extrema secara-lhe as cores provocadoras do rosto; seus olhos bailavam nas cavadas órbitas, sinistros na travessa inconsciência da loucura; os cabelos caíam-lhe desgrenhadamente pelo rosto e pelas costas, dando-lhe a expressão fantástica de uma fúria de Góia; o peito, despojado pela moléstia, aparecia na sua profunda palidez por entre os rasgões da camisa, e os braços esqueléticos moviam-se vagarosamente, quase sem forças para suportar o próprio peso.
Os dois homens sentiram-se aterrados à vista daquela aparição inesperada. O pequenito, ao encarar com o medonho espectro da mãe, abriu a chorar de medo e a segurar-se nas pernas do marujo.
Cecília, entretanto, continuava a rir estranhamente e a fazer para os dois momices ininteligíveis. O marinheiro cobriu o rosto com as mãos e abafou os soluços; só se lhe via arfar o largo peito, debaixo das grossas barbas roçadas pelo pranto.
O comandante passeava os olhos de um para o outro, como se lhes perguntasse a ambos o que haviam feito da sua felicidade. Depois apoiou-se à parede e caminhou tropegamente para o quarto; o pequenito quis acompanhá-lo, mas ele o desviou com a mão, sem voltar o rosto.
Cecília apontou para o filho e soltou uma nova risada. Então o marinheiro tomou ao colo a criança e começou a ameigá-la, como fazia dantes nos tempos mais felizes; Gregório só se consolou de todo com a promessa de que o marujo lhe contaria a história da sereia que furtava os meninos endiabrados. Mas o pobre homem tinha de interromper de vez em quando a sua narrativa, porque um áspero novelo lhe tolhia a voz na garganta.
— Você está chorando?... perguntou o pequeno, muito admirado.
— E que tenho pena dos meninos que a sereia carrega...
— Coitadinhos! disse aquele interessado na história, e pediu ao marujo que lhe cantasse certa modinha de que ele gostava muito. — Não! hoje não se canta!
Mas o pequeno insistiu, chorou; e o marinheiro afinal, para não ser ouvido pela patroa, carregou com ele para o terraço e principiou a cantar a mesma loa com que procurava antigamente distrair Cecília. A voz rude e grossa tremia-lhe na garganta. O pequenito, assentado nas pernas do marujo, olhava para este embebido naquela toada monótona, com que tantas vezes adormecera.
Quando Tubarão acabou, soluçando, a última estrofe da cantiga, deu com a louca, que ali fora atraída por uma vaga reminiscência das suas tardes de verão.
Essa não chorava.
Veio o médico mais tarde e declarou que a doente precisava sair daquela casa. Tubarão não sabia o que fazer; procurou falar ao amo; este, com um formidável grito, exigiu que o deixassem em paz, depois tornou a fechar a porta do quarto e não apareceu a mais ninguém nesse dia.
Em tais apuros, saiu de casa o marinheiro para providenciar sobre o que urgia, quando, ao dobrar uma esquina, deu cara a cara com Margarida, que passeava pelo braço do marido.
— É o Tubarão! exclamou o conde, quando o marinheiro se aproximou dele.
— Creio que sim! porque eu mesmo já não sei a quantas ando!
— Você já não mora em companhia de Cecília? perguntou Margarida.
— Pois é por causa dela mesma, coitada! que ando nesta dobadoura...
E o marinheiro em poucas palavras contou o que havia.
— Conde, depressa! gritou a boa senhora; corramos a socorrer a pobre Cecília!
O conde deu-lhe o braço e seguiram todos para a casa de Leão Vermelho.
Margarida havia chegado na véspera ao Porto, e tinha de partir daí a três dias. O médico aconselhara ao marido que a fizesse viajar, e o conde, que adorava a mulher, tremia só com a idéia de que lhe voltassem a ela os antigos padecimentos. Mas desta vez era necessário um clima mais quente, e, como Margarida não se dava bem com os ares do sul da Itália, ficara resolvido seguirem para o Brasil.
O conde chamou um carro que passava na ocasião, e daí a pouco eram conduzidos pelo marujo ao lado da louca. Cecília não os reconheceu, ou pelo menos não mostrou o menor interesse em tornar a vê-los. Leão Vermelho atirou-se nos braços do amigo, e então desabafou em lágrimas o desgosto que se lhe havia acumulado no coração.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.