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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Sim, porque a fluminense, habituada como está na capital e familiarizada com os bailes, com os espetáculos do lírico, com os passeios, já se não se preocupa com essas coisas e, uma vez casada, dedica-se exclusivamente ao lar, ao marido e aos filhinhos; ao passo que com as outras, as provincianas, sucede justamente o contrário, visto que ainda não conhecem aqueles gozos e só desejam o casamento para conhecê-los. Daí as suas exigências; nada as satisfaz, porque tudo fica muito aquém dos seus sonhos da província; o que para as outras é tudo, para elas não é nada. Bailes e teatros toda a noite, carruagens, lacaios, vestidos de seda, dez ou vinte criados, nada as contenta, nada corresponde ao que elas ambicionam. E o marido, o pobre marido de semelhante gente, depois de arruinado e depois de passar uma existência sem amor e sem aconchegos de família, ainda terá de suportar as queixas e os ressentimentos de uma mulher desiludida e blasé.

— Perdão! Replicou o estudante. — Isso prova simplesmente que toda a mulher, seja da província ou da Corte, apresenta sempre certa dose de ambições. Com a diferença, porém, de que a provinciana, por isso mesmo que o Rio de Janeiro é o seu ideal, é o seu sonho dourado, contenta-se com ele; enquanto que a outra, visto que o supradito Rio de Janeiro para ela nada mais é que o comum, estende naturalmente a sua ambição — e quer Paris. O Passeio Público já não a satisfaz, é preciso dar-lhe Bois de Boulogne; já não lhe chegam carruagens, criados e teatros; quer tudo isso e mais um título, de baronesa pelo menos!

E, encantado com a clareza do seu argumento, continuou a discutir, chegando à conclusão de que seria loucura desejar uma mulher isenta de ambições e caprichos, e que ele já se daria por muito satisfeito se encontrasse alguma, cujo ideal não fosse além do Rio de Janeiro.

Amélia era precisamente dessa opinião, mas entendia que, mesmo na Corte, se encontravam meninas bem educadas e aliás muito modestas.

Amâncio declarou que não argumentava com exceções. — Sabia perfeitamente que nem todas as fluminenses calçavam pela mesma forma, e não tinha a pretensão de dizer “desta água não beberei, deste pão não comerei!” apenas não admitia aquela razão, que apresentava Mme. Brizard, para provar que as provincianas eram mais dispendiosas do que as filhas da Corte. Isso não! que o desculpassem, mas não podia admitir!

Sempre queria vê-lo casado com uma provinciana!... observou a francesa, tomando a roupa que lhe passava a outra. — Então sim! Aposto que não teria a mesma opinião!

Amâncio não respondeu logo, porque estava muito ocupado a apanhar do chão uma grande pilha de camisas engomadas, que Amelinha deixara cair. Mme. Brizard acudiu também a ajudá-los, e, na precipitação com que todos três, agachados um defronte dos outros, queriam ao mesmo tempo recolher a roupa espalhada no soalho, as mãos do estudante encontraram-se com umas mãozinhas finas que não eram certamente as de Mme. Brizard.

Mas todas as vezes que ele tentou retê-las entre as suas, as tais mãozinhas fugiam tão ligeiras, como se lhes houvessem chegado uma brasa

CAPÍTULO IX

O baile em casa do Melo esteve bom. Este, muito magro, de suíças negras, olhos fundos e movimentos rápidos, não descansava um instante; tão depressa o viam conduzindo senhoras pela escada, como a receber apresentações na sala de jantar, como a formar quadrilhas; voltando-se para todos os lados e atendendo a todas as pessoas.

O Melo tinha boas relações e alguns bens adquiridos no comércio; nunca se envolveu diretamente com a política, mas prezava o monarca e esperava , com resignação, um hábito que há dez anos lhe haviam prometido pingar sobre a lapela da casaca. A mulher, que já não era criança, ainda metia muita vista e passava por bonita; homens, que envelheceram com ela, citavam-na como um tipo de formosura.

Amâncio foi recebido com especial agrado, graças a Luís Campos que era íntimo do dono da casa.

A circunstância de que ali se achava só, no meio de tanta gente estranha, como que apertava o círculo de suas relações com a família do correspondente. Fazia-se muito deles, muito aparentado; não dispunha de mais ninguém para desabafar as suas impressões e para conversar um pouco mais à vontade.

Assim, quando saltamos num porto pela primeira vez, sentimos estreitarem-se de repente nossas relações com os companheiros de bordo, ainda mesmo que os conheçamos de poucos dias.

Até Carlotinha parecia mais expansiva, principalmente depois que Amâncio se revelou insigne dançador de valsa. Ela era louca pela dança. Maria Hortênsia notara igualmente que o provinciano tinha um certo talento coreográfico muito peculiar, e não ficou isolada nesse juízo, porque várias senhoras se declararam a mesma opinião.

Não tardou muito a que semelhante julgamento se estendesse pelas outras salas. E em breve estavam todas as damas de acordo em que Amâncio era o melhor par daquela noite.

(continua...)

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