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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Durava este entusiasmo campesino três dias. No quarto Fernando achava um pretexto qualquer para a volta precipitada, e antes de uma semana estava restituído à corte. A primeira noite de baile ou partida, era uma ressurreição. 

De um homem assim organizado com a molécula do luxo e do galanteio, não se podia esperar o sacrifício enorme de renunciar à vida elegante. Excedia isso a suas forças; era uma aberração de sua natureza. Mais fácil fora renunciar a vida na flor da mocidade, quando tudo lhe sorria, do que sujeitar-se a esse suicídio moral, a esse aniquilamento do eu. 

Quando Seixas convenceu-se que não podia casar com Aurélia, revoltou-se contra si próprio. Não se perdoava a imprudência de apaixonar-se por uma moça pobre a quase órfã, imprudência, a que pusera remate o pedido de casamento. O rompimento deste enlace irrefletido era para ele uma coisa irremediável, fatal; mas o seu procedimento o indignava. 

Havia nessa contradição da consciência de Seixas com a sua vontade uma anomalia psicológica, da qual não são raros os exemplos na sociedade atual. O falseamento de certos princípios da moral, dissimulado pela educação e conveniências sociais, vai criando esses aleijões de homens de bem. 

Quem não conhece o livro em que Otávio Feuillet glorificou sob o título de honra as últimas hesitações de uma alma profundamente corrompida? 

Seixas estava muito longe de ser um Camors; mas já nele começava o embotamento do senso moral, que o influxo de uma civilização adiantada, e no seio de uma sociedade corroída como a de Paris, acaba por abordar aqueles monstros. 

Para o leão fluminense, mentir a uma senhora, insinuar-lhe uma esperança de casamento, trair um amigo, seduzir-lhe a mulher, eram passes de um jogo social, permitidos pelo código da vida elegante. A moral inventada para uso dos colégios, nada tinha que ver com as distrações da gente do tom. 

Faltar porém à palavra dada; retirar sem motivo uma promessa formal de casamento, era no conceito de Seixas, ato que desvairava um cavalheiro. No caso especial em que se achava, essa quebra de palavra tornava-se ainda mais grave. 

Aurélia não tinha outro arrimo senão a mãe, consumida pela enfermidade que pouco tempo de vida lhe deixava. Faltando D. Emília, ficaria a filha órfã, sem abrigo, ao desamparo. Abandonar nessas tristes condições uma pobre moça, tida por sua noiva, seria dar escândalo. 

Independente da reprovação que o fato receberia de seu círculo, a própria consciência lhe advertia da irregularidade desse proceder, que ele não julgava qualificar severamente tachando-o de desleal. 

Estas apreensões abateram o ânimo igual e prazenteiro de Seixas. Não perdeu o semblante a expressão afável, que era como a flor da nobre e inteligente fisionomia; nem apagou-se nos lábios o sorriso que parecia molde da palavra persuasiva; mas sob essa jovialidade de aparato flutuava a sombra de uma tristeza, que devia ser profunda, pois se fixara nessa natureza volúvel e descuidosa. 

Aurélia percebeu imediatamente a mudança que se havia operado em seu noivo, e inquiriu do motivo. Fernando disfarçou; a moça não insistiu; e até pareceu esquecer a sua observação. 

Uma noite porém em que Seixas se mostrara mais preocupado, na despedida ela disse-lhe: 

- A sua promessa de casamento o está afligindo, Fernando; eu lha restituo. A mim basta-me o seu amor, já lho disse uma vez; desde que mo deu, não lhe pedi nada mais. 

Fernando opôs às palavras de Aurélia frouxa negativa, e formulou uma pergunta cuja intenção a moça não alcançou. 

- Julga você, Aurélia, que uma moça pode amar a um homem, a quem não espera unir-se? 

- A prova é que o amo, respondeu a moça com candura. 

- E o mundo? Proferiu Seixas com reticências no olhar. 

- O mundo tem o direito de exigir de mim a dignidade da mulher; e esta ninguém melhor do que o senhor sabe como a respeito. Quanto a meu amor não devo contas senão a Deus que me deu uma lama, e ao senhor a quem a entreguei. 

Fernando retirou-se ainda mais descontente e aborrecido. Essa afeição ardente, profunda, sublime de abnegação, ao passo que lisonjeava-lhe o amor próprio, ainda mais o prendia a essa formosa menina, de quem o arredavam fatalmente seus instintos aristocráticos e o terror pânico da mediania laboriosa. 

Quando propusera a Aurélia a questão de sua posição equívoca, esperava acordar escrúpulos, que lhe dariam pretextos para de todo cortar essas tão doces, quanto perigosas relações. A resposta da menina o desconcertou. 

Foi nessas circunstâncias que Seixas recebeu o oferecimento do Amaral, e cedendo às suas instâncias amáveis, começou a freqüentar-lhe a casa. 

(continua...)

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