Por José de Alencar (1870)
A insistência do desconhecido em passar todas as manhãs afugentou Jacintinha do alpendre ao cabo de três ou quatro dias. De dentro da casa, pela fresta da janela, sem ser vista, reparava quando o mancebo já de volta de seu passeio, sumia-se ao longe; e então ia tomar o cantinho do costume.
Um dia o desconhecido, suspeitando do que passava, depois de ter acabado seu passeio, escondeu-se por perto. Quando a menina tomou seu lugar, ele aproximou-se sem que o percebessem, e ficou enlevado em contemplar a beleza da irmã de Manuel. Por acaso Jacintinha deu com os olhos nele, assim embebido em êxtase e adoração; estremeceu, empalidecendo de susto; quis erguer-se para fugir, mas caiu sobre o banco, e aí ficou palpitando com a cabeça baixa e o corpo inerte.
O desconhecido tinha desaparecido, e três dias não voltou.
À tarde, aparecendo uns dois peões que vinham ver a viúva e saber notícias do Manuel Canho, falaram das novidades da terra e contaram o que se dizia pelas vendas e povoações a respeito da rusga.
— Agora está arranchado na estância um chileno que veio da outra banda, e vai até Cruz Alta; ele diz que a rusga não tarda.
— Pois decerto, desde que demitiram o compadre, acudiu Francisca.
Jacintinha estremeceu, ouvindo falar no estrangeiro. Foi com a voz trêmula e disfarçando sua confusão que ela perguntou a um dos peões, enquanto o outro continuava a conversa com a mãe:
— Esse sujeito que chegou… também vai para a rusga?
— Qual! Anda vendendo seu negócio, e o mais é que traz coisas bem chibantes! Não quer ver? Ele mostra…
— Não! respondeu Jacintinha banhada em uma onda de púrpura.
Quando se retiraram os peões, a moça no meio das cismas em que se enleava seu espírito, murmurou consigo:
— Qualquer destes dias ele se vai embora e eu fico descansada.
A primeira vez que apareceu o desconhecido, depois de sua ausência de três dias, estava completamente outro do que antes parecia. Já não era o cavaleiro risonho e faceiro, porém um mancebo pensativo, acabrunhado por algum oculto pesar; seu formoso cavalo castanho partilhava a tristeza do senhor: não tinha mais o garbo antigo, andava agora a passo, com o pescoço estendido e a cabeça baixa.
Jacintinha, que deixara o alpendre apenas reconheceu de longe o cavaleiro, acompanhando-o com a vista pela fresta da janela, reparou na mudança que se tinha operado no ar e maneiras do mancebo. Teve um pressentimento de que era ela a causa dessa mágoa, e por sua vez reclinou a cabeça pensativa.
Dias depois a moça descobriu que lhe faltava, lá para certa costura, uma tira de fazenda. Consentindo Francisca na despesa, prometeu fazer a encomenda pelo próximo peão que fosse a Sant’Ana do Livramento.
— Quem sabe se o sujeito que está arranchado na estância não terá?
— Ele é mascate?
— O Antônio disse que era.
— Pois mande-a ver.
O peão incumbiu-se da comissão, e no dia seguinte apresentou-se em casa de Francisca o desconhecido cavaleiro, que não era outro senão D. Romero. Avistando-o, Jacintinha arrependeu-se de sua imprudência, e quis remediá-la não aparecendo ao mascate; mas era tarde. Ele a tinha cortejado com um modo tão delicado!
O chileno mostrou a Francisca e à filha uma grande porção de jóias e galanterias, que trazia para tentar as damas. As duas mulheres se esquivaram, dizendo que estes objetos não eram para elas, e sim para gente rica; mas D. Romero tinha palavras tão insinuantes, maneiras tão corteses, que elas não puderam afinal resistir ao desejo de ver coisas tão bonitas.
Na passagem dos objetos de mão em mão, o chileno aproveitou a ocasião para cerrar os dedos mimosos da moça. Ela zangou-se, mas encontrou um olhar suplicante, que a desarmou. Contudo resguardou-se contra nova tentativa.
D. Romero cativara o agrado de Francisca e desde então era bem recebido sempre que se apresentava em sua casa sob qualquer pretexto.
Livro Terceiro
MORENA
I
A MULA
Cruzando a coxilha grande, que atravessa a província de São Pedro, se alonga a serra do mar, como a bossa granítica daquele espinhaço.
Ao norte ficam as altas regiões, as chapadas da montanha; ao sul dilata-se a imensa campanha que vai morrer nas margens do Uruguai e do Paraná.
Estas vastas campinas, que se desdobram pelas abas da coxilha grande, são como as páginas de um capítulo da história do Brasil.
O dorso da coxilha é o lombo do livro; as folhas espalmam-se de um e outro lado. Aí escreveram as armas brasileiras muita coisa admirável: grandes feitos, combates gloriosos, brilhantes painéis em rude tela.
Que recordações heróicas não despertam os nomes de São Borja, Ibicuí, Rosário, Corumbá, Índia-Morta, São Carlos, Catalã, Taquarembó e Paissandu!
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.