Por Camilo Castelo Branco (1862)
Reduplicada a fúria, foi dali ao corregedor do Porto, com os mesmos requerimentos, em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a velhice sem juízo era coisa tão de riso como de lástima. Esteve então a pique de perder-se a cabeça de Tadeu de Albuquerque. Andava e desandava as ruas do Porto, sem atinar com uma saída digna da sua prosápia e vingança. No dia seguinte, bateu à porta de alguns desembargadores, e achava-os mais inclinados à demência que à justiça a respeito de Simão Botelho. Um deles, amigo de infância de D. Rita Preciosa, e implorado por ela, falou assim ao sanhudo fidalgo:
— Em pouco está o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas mortes teria vossa senhoria hoje feito se alguns adversários se opusessem à sua cólera? Esse infeliz moço, contra quem o senhor solicita desvairadas violências, conserva a honra na altura da sua imensa desgraça. Abandonou-o o pai, deixando-o condenar à forca; e ele da sua extrema degradação nunca fez sair um grito suplicante de misericórdia, Um estranho lhe esmolou a subsistência de oito meses de cárcere, e ele aceitou a esmola, que era honra para si e para quem lha dava. Hoje, fui eu ver esse desgraçado filho de uma senhora que eu conheci no paço, sentada ao lado dos reis. Achei-o vestido de baetão e pano pedrês. Perguntei-lhe se assim estava desprovido de fato. Respondeu-me que se vestira à proporção dos seus meios, e que devia à caridade dum ferrador aquelas calças e jaqueta. Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu pai para o vestir decentemente. Disse-me que não pedia nada a quem consentiu que os delitos do seu coração e da sua dignidade e do pundonor do seu nome fossem expiados num patíbulo. Há grandeza neste homem de dezoito anos, senhor Albuquerque. Se vossa senhoria tivesse consentido que sua filha amasse Simão Botelho Castelo-Branco, teria poupado a vida ao homem sem honra que se lhe atravessou com insultos e ofensas corporais de tal afronta, que desonrado ficaria Simão se as não repelisse como homem de alma e brios. Se vossa senhoria se não tivesse oposto às honestíssimas e inocentes afeições de sua filha, a justiça não teria mandado arvorar uma forca, nem a vida de seu sobrinho teria sido imolada aos seus caprichos de mau pai. E, se sua filha casasse com o filho do corregedor de Viseu, pensa acaso vossa senhoria que os seus brasões sofriam desdouro? Não sei de que século data a nobreza do senhor Tadeu de Albuquerque, mas do brasão de D. Rita Teresa Margarida Preciosa Caldeirão Castelo-Branco posso dar-lhe informações sobre as páginas das mais verídicas e ilustres genealogias do reino. Par parte de seu pai, Simão Botelho tem do melhor sangue de Trás-os-Montes, e não se temerá de entrar em competências com o dos Albuquerques de Viseu, que não é de certo o dos Albuquerques terríveis de que reza Luís de Camões...
Ofendido até ao âmago pela derradeira ironia, Tadeu ergueu-se de ímpeto, tomou o chapéu e a enorme bengala de castão de ouro e fez a cortesia de despedida.
— São amargas as verdades, não é assim? — disse-lhe, sorrindo, o desembargador Mourão Mosqueira,
— Vossa excelência lá sabe o que diz, e eu cá sei no que hei de ficar — respondeu com tom irônico o fidalgo, alanceado na sua honra e na dos seus quinze avós.
O desembargador retorquiu:
— Fique no que quiser; mas vá na certeza, se isso lhe serve de alguma coisa, que Simão Botelho não vai à forca.
— Veremos... — resmoneou o velho.
São treze dias decorridos do mês de Março de 1805.
Está Simão num quarto de malta das cadeias da Relação. Um catre de tábuas, um colchão de embarque, uma banca e cadeira de ninho e um pequeno pacote de roupa, colocado no lugar do travesseiro, são a sua mobília. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contém as cartas de Teresa, ramilhetes secos, os seus manuscritos do cárcere de Viseu e um avental de Mariana, o último com que ela, no dia do julgamento, enxugara as lágrimas e arrancara de si no primeiro instante de demência.
Simão relê as cartas de Teresa, abre os envoltórios de papel que encerram as flores ressequidas, contempla o avental de linho, procurando esvaídos vestígios das lágrimas. Depois, encosta a face e o peito aos ferros da sua janela, e avista os horizontes boleados pela serras de Valongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pitorescas de Gaia, do Candal, de Oliveira e do mosteiro da Serra-do-Pilar. ~ um dia lindo, Refletem-se do azul do céu os mil matizes da primavera. Tem aromas o ar, e a viração fugitiva dos jardins derrama no éter as aromas que roubou aos canteiros, Aquela indefinida alegria, que parece reluzir nas legiões de espírito que se geram ao sol de março, rejubila a natureza que, toda pompa de luz e flores, se está namorando do calor que a vai fecundando.
Dia de amor e de esperanças era aquele que o Senhor mandava à choça escravada na garganta da serra, ao palácio esplendoroso que reverberava ao Sol os seus espiráculos, ao opulento que passeava as ruas moles equipagens, bafejado pelo respiro acre das sarças, e ao mendigo que desentorpecia os membros encostado às colunas dos templos.
E Simão Botelho, fugindo a claridade da luz e o voejar das aves, meditando, chorava e escrevia assim as suas meditações:
"O pão do trabalho de cada dia e o teu seio para repousar uma hora a face, pura de manchas: não pedi mais ao céu.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.