Por Aluísio Azevedo (1882)
— Infelizmente não lhe posso dizer nada, mas juro-lhe que sou incapaz de faltar com meus deveres de esposa!
— E consente que um homem penetre fora de horas em sua casa, patroa?...
Ah! Isso não se faz!
— Em minha casa, não!
— Mas no seu jardim!...
— Oh! não me crimine por amor de Deus! Juro-lhe que não sou culpada! — Sim! eu acredito, mas...
As aparências acusam-me; bem sei! repito-lhe porém que sou incapaz de enganar meu marido!
— Que quer dizer então a visita daquele homem?... Desculpe vossemecê, mas eu tenho de dar contas ao comandante! Não! lá o que me está em confiança há de ser vigiado! Se aquele sujeito é um velhaco, eu o afasto com dois murros; se ele aqui veio autorizado pela dona da casa, então é com ela que me tenho de haver!
— Que quer dizer você?
— Quero dizer que eu aqui represento a pessoa do meu patrão! Se ele é atraiçoado, tenha vossemecê paciência, mas eu o vingarei!
— Uma ameaça?! Mas...
— Não tem mais, nem menos! É pôr em pratos limpos o que há! Cartas na mesa! Ou então faço justiça a meu modo!
— Meu Deus! exclamou Cecília, segurando a cabeça. Que humilhação! que vergonha! E, vendo que o marinheiro parecia firme nas suas ameaças, procurou abrandá-lo com ternura. — Mas, Tubarão, reflita, lembre-se de que há coisas, segredos, que se não podem contar assim tão facilmente!...
— Uma mulher honesta não tem segredos para seu marido!
— E se for um segredo que venha do tempo em que eu ainda não era casada?... Acaso me poderão agora responsabilizar por .......
— Conforme!... respondeu Tubarão, inalterável. Em todo o caso não admito que se engane ao meu comandante! Se vossemecê não me quer dizer o que há, Pedro Ruivo há de dizê-lo à força!
— Ah! exclamou Cecília, empalidecendo. Estou perdida! Sabe tudo!
murmurou ela.
— Que há entre Pedro Ruivo e vossemecê, D. Cecília?!
— Oh! se sabe tudo, não me obrigue a corar em sua presença! Poupe-me essa vergonha!
O pequenito levantara-se atraído por aquela cena e olhava espantado para Tubarão.
— Eu não sei coisa alguma! respondeu este. Fale vossemecê!
— Ó meu Deus! Mas que quer que lhe diga?!...
— Quero que me fale com franqueza ou comunico o que sei ao comandante. Se vossemecê for inocente, não lhe farei mal algum... pode ficar descansada...
— E jura-me, Tubarão, que, se eu lhe provar a minha inocência, poderei contar com o seu auxilio para fugir à perseguição de Pedro Ruivo?...
— Palavra de marinheiro!
— Nesse caso vou contar-lhe tudo.
E Cecília narrou francamente os fatos de sua vida, já sabidos pelo leitor. Tubarão ouviu-os com interesse e, terminada a narração, corriam-lhe as lágrimas dos olhos.
— Com mil raios! exclamou ele afinal; há muito homem ruim por este mundo!
E, tendo refletido um instante, perguntou se Gregório não era então filho do comandante.
— Não! respondeu Cecília; não é.
— Raios me partam! que não sei o que faça! A senhora devia ter declarado isso logo, no momento de casar!...
— Faltou-me a coragem, meu amigo...
— Agora, ou hei de mentir ao patrão, ou tenho de acusá-la; o que deveras me faz pena, porque no fim de contas, o culpado é aquele maroto! Ah! ele é que devia receber uma boa lição!... E há de recebê-la ou não sou eu quem sou!
Cecília, quando o Tubarão se despediu, recolheu-se ao quarto muito acabrunhada. À noite apareceram-lhe febres, e no dia seguinte não se pôde levantar da cama.
Entretanto, o marinheiro embalde procurou encontrar-se com Pedro Ruivo. Este nem só faltara à entrevista de que falaram os dois homens da taverna, como não aparecia em parte alguma; só no fim de quinze dias constou que ele já não estava no Porto.
— O velhaco parece que adivinhou! disse consigo o Tubarão, e adiou para mais tarde o que reservava para o Ruivo. Mas não pôde ficar tranqüilo; Cecília continuava doente, desde o terrível dia em que o rude marinheiro lhe arrancou a confissão da sua falta.
— Fui um bruto! considerava ele; devia ter feito a coisa de outro modo! Fui logo às do cabo!
E, para penitenciar-se, desfazia-se em desvelos com a enferma. A moléstia, porém, não cedia, e o médico de Cecília principiava a desanimar.
Assim correram dois meses e meio, até que a chegada inesperada do comandante veio transformar completamente a situação. Leão Vermelho trazia consigo uma carta anônima em que lhe patenteavam as culpas da mulher. Pedro Ruivo cumprira a sua promessa: Cecília estava denunciada. O comandante, que vivia já sobredesconfiado com a primeira carta surpreendida nas mãos da esposa, acabou por se julgar traído e ultrajado, principalmente à vista dos sobressaltos da acusada, quando ouviu falar do crime em que era suspeita, e à vista dos embaraços de Tubarão, quando o amo o interpelou sobre o que se passara com Cecília na sua ausência.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.