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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Imagine-se agora como viveria o Borges nesse meio; ao passo que Filomena, longe de acompanhar o ressentimento do marido, descobria em tudo aquilo um sedutor aspecto de aventura e de boêmia, inteiramente novo para a sua fantasia. Aquela miserável espelunca, habitada por gente de circo, mascates e engraxadores, vista pelo prisma de sua loucura, tomou as dimensões românticas de um antro misterioso a Eugênia Sue.

Não obstante, o implacável circulo mais e mais se contraia em torno deles; as pequenas necessidades de todos os dias multiplicavam-se, trazendo cada uma a sua gota de fel, como uma praga de insetos venenosos. A necessidade principiava a transpirar o seu fétido horrendo, que a todos revolta e afugenta; enquanto que a inimizade, a desconsideração, a antipatia, o ódio, o desprezo vinham-se chegando para eles, como um bando de corvos ao cheiro da carniça.

O dono da casa, ao ver o Borges, fazia já uma careta de raiva; a lavadeira de Filomena escrevia-lhe bilhetes grosseiros, exigindo o pagamento de seu trabalho, e todos, todos os que os cercavam, tinham para eles palavras duras, olhares maus, gestos de desconfiança ou sorrisos de desprezo.

Então, o Borges, pela primeira vez, compreendeu que a pureza de seu caráter e a bondade de seu coração não eram dotes naturais, mas uma simples resultante das circunstâncias felizes de sua vida.

— Ah! dinheiro! dinheiro! pensou ele, tu és o único que nos dás o direito de sermos bons, generosos e abençoados pelos nossos semelhantes. Tu és o único que conquistas a simpatia e o respeito do mundo inteiro! Tudo me perdoavam — a estupidez, a brutalidade, a doçura, a fraqueza, até os crimes, se os cometesse; só não me perdoara já te não possuir. Ó meu chorado companheiro de tanto tempo! Que importa que do nosso dinheiro não participe ninguém? Que importa que ele só preste ao egoísta que o possui; que importa? O dono será sempre "um homem honesto!" Terá quem o defenda, quem o elogie, quem o ame, quem o proteja, quem lhe ofereça e dê aquilo que ele não pede e do que não precisa. "Não ter onde cair morto". Isto é que ninguém perdoa! Furta, mata, prostitui-te; mas, se deres à tua mãe o dinheiro que furtaste, serás "um bom filho"; se deres à tua mulher o fruto de tua prostituição serás "um bom marido"; se o deres à tua amante, serás "um fidalgo, um excelente cavalheiro, um homem de bem". E todos te abençoarão! Terás em redor de ti o acatamento, o sorriso, a lisonja, porque és, ou porque podes ser "bom". Porque o teu dinheiro vale pelo destino que há de ter e não pela procedência que teve!

Depois de semelhantes considerações, o Borges sentiu um profundo rancor pelo gênero humano e uma pesada indiferença pelo bom cumprimento do dever.

— Ilusão! tudo ilusão!... dizia ele, a sacudir a cabeça, sem se lembrar de que no meio de toda essa tempestade, o seu amor conjugal, aquilo que ele mais estimava no mundo, havia-se enfolhado e frutescido.

Mas o maldito círculo está prestes a esmagá-los.

Vendeu-se a última jóia; esgotou-se o último recurso.

Filomena, entretanto, não se mostrava aflita; não amaldiçoava o marido e, quando o via entrar da rua com a barba por fazer, a roupa esgarçada, os sapatos rotos, a camisa cheia de pó e de suor, e a cara transformada por um desespero supremo; ela, igualmente transfigurada, cheia de prenhez e mau trato, descarnada, sem cor, caía-lhe nos braços freneticamente, louca, ressuscitando-lhe, com os seus beijos de fogo, todas as feras adormecidas do amor.

Um belo dia, acordaram sem um real. O dono da casa negou-se logo a fornecer comida, enquanto não pagassem o que já deviam.

— Ao menos hoje! disse-lhe o Borges, tomando-o de parte. — não quero nada para mim, é só para ela, para minha mulher!... coitada! Ainda se não estivesse naquele estado... mas, assim a menor contrariedade pode lhe ser fatal! Tenha paciência!... o senhor receberá depois tudo o que ficarmos a dever!...

— É o diabo!... resmungou o estalajadeiro. — É o diabo! os gêneros não me vem de graça para casa!...

— Mas também eu não estou lhe pedindo que nos dê de graça! Ora essa! Apenas quero que espere um instante mais pelo pagamento!

— E qual é a garantia que tenho eu disto?! interrogou o locandeiro, picado já pelo tom em que lhe falava o hóspede.

— Eu não sei se o senhor pagará ou não!

— Ó homem! bradou o Borges. — Não hei de carregar minha mulher naquele estado, sem ter ainda para onde ir! Descanse, que hoje mesmo hei de dar um jeito às coisas!

— Pois dê primeiro o tal jeito, que eu cá estou para o servir do que quiser... — Mas você não vê que ela não pode ficar sem comer até que eu volte?!...

O estalajadeiro sacudiu os ombros.

— Você não vê que isto é um caso sério?!... tornou o Borges.

— Nada tenho com isso, respondeu aquele.

— Mas você não vê que é uma questão de vida?! Você quer matá-la?!

— Que a leve o diabo!

— Maroto! exclamou o Borges, perdendo de todo a paciência e erguendo o estalajadeiro pela braguilha. Nem mais uma palavra. tratante! se não queres ficar em pedaços!

(continua...)

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