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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Como te enganas! Respondeu a velha — já compreendi bem esse sujeito: a sua corda sensível são as mulheres! Gosta que lhe falem nisso! Tu, do que precisas, é opor-lhe dificuldades, sem que o desenganes por uma vez; nega, mas promete, que obterás a vitória. Quando ele te pedir um beijo, dá-lhe um sorriso; e, quando quiser muito mais, dá-lhe então o beijo, contando que te mostres logo arrependida, envergonhada, chorosa, inconsolável, disposta a não lhe ceder mais nada, e disposta a nunca lhe pertenceres, a nunca lhe perdoares aquele atrevimento. E, se ele insistir, repele-o, insulta-o, jura que o desprezas e fá-lo acreditar que amas a outro. — É dessa forma que o hás de agarrar, percebes? Lá quando às minhas chalaças de ainda há pouco, descansa que por aí não irá o gato às filhoses.

Nesse momento, o rapaz acabava de abrir as malas. As duas senhoras apareceram no quarto.

Ele tinha muita roupa branca, e tudo bom. Camisas finas de linho, ricas toalhas de renda marcadas cuidadosamente por sua mãe, fronhas bordadas, mostrando o seu nome entre labirintos e desenhos caprichosos.

Sentia-se o amor, o desvelo, com que tudo aquilo fora arrumado; cada objeto parecia conservar ainda a marca da mão carinhosa que o acondicionara a um canto da arca. Alguns denunciavam o trabalho paciente de longos tempos, traziam à idéia calmos serões à luz do candeeiro. Adivinhava-se, pelo completo daquele enxoval, a providência de um coração materno; nada faltava.

À proporção que se iam tirando as peças de roupa, uma tepidez embalsamada respirava dentre elas; parecia que um perfume ideal de beijos se exalava ao desdobrar dos brancos lençóis de linhos; percebia-se que muita lágrima e muito soluço ficaram abafados no fundo daquelas arcas.

Vieram ao provinciano novas e mais vivas saudades de Ângela. Uma vaga tristeza apoderou-se dele, ficou distraído, a olhar silenciosamente para as roupas que as duas mulheres empilhava no chão e sobre a cama. Sentiu, compreendeu, que ele próprio, à semelhança daquelas arcas, havia também de ir perdendo, pouco a pouco, todas as ilusões, todos os perfumes, com que saíra impregnado dos braços de sua mãe.

E afastou-se do quarto para limpar as lágrimas. As lágrimas, sim, que o fato de sua primeira viagem, as impressões da Corte, a saudade, as aventuras amorosas, as ceatas pelos hotéis, davam-lhe ultimamente uma sensibilidade muito nervosa e feminil. Elas acudiam-lhe agora com extrema facilidade; chorava sempre que se comovia. Às vezes no teatro, assistindo à representação

De qualquer drama de efeitos, ficava envergonhado por não poder impedir que os olhos se lhe enchessem de água; a simples descrição de uma desgraça perturbava-o todo; a música italiana o entristecia; a idéia de um feito erótico ou de um rasgo de perversidade era o bastante para lhe agitar a circulação do sangue e formar-lhe godilhões na garganta.

Quando voltou ao quarto, já os baús estavam despejados.

Mme. Brizard não se fartava de elogiar a boa qualidade das fazendas, o bem cosido das roupas, a pachorra e asseio com que tudo fora feiro. Apreciava o trabalho das marcas; chamava a tenção de Amélia para os bordados, para os labirintos e para as rendas.

— Olha! Disse-lhe, mostrando um pano de crochê, — o desenho é justamente como aquele da toalha do oratório. Só faltam aqui as duas borboletas do canto.

E arrumava tudo, com muito cuidado, nas gavetas da cômoda. Tomava religiosamente sobre os braços os pesados lençóis, os maços de ceroulas em folha, os pacotes intactos de meias listradas, os de lenços barrados de seda, os colarinhos de todos os feitios, as gravatas de todas as cores. E não acondicionava uma peça sem afagá-la, sem lhe passar por cima as mãos abertas.

— O rapaz estava provido de tudo! Disse em voz baixa. E, depois acrescentou alto, rindo: — Podia até se casar se quisesse!

— Falta o principal... respondeu ele.

— Que é? Acudiu logo Amélia.

— A noiva! Explicou o moço, olhando intencionalmente para a rapariga. — Deve estar à sua espera no Maranhão... volveu ela.

E abaixou os olhos com um movimento de inocência, muito bem feito.

— Não vê! Exclamou a velha. — Então um rapaz desta ordem deixava as meninas da Corte para amarrar-se a uma provinciana?... Seria de mau gosto!

— Não sei por que, retorquiu Amâncio, ligeiramente escandalizado. — Na província há senhoras bem educadas, muito chiques!

— Sei, sei, perfeitamente, disse Mme. Brizard, evitando contrariá-lo. Sei que as há ... mas é que o Sr. Vasconcelos tem elementos para desejar muito melhor! Seria pena que um rapaz tão perfeito não escolhesse uma noivinha comme il faut.—

Bonita, instruída, que soubesse entrar e sair numa sala, conversar, fazer música, recitar, servir um almoço, dirigir uma soirée. Além de que, meu caro senhor, as provincianas, em geral, saem muito mais exigentes do que as filhas da Corte.

E, como Amâncio fizesse um ar de espanto:

(continua...)

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