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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os três contos de réis, foi para as Lamelas, e entrou de noite, para que o não vissem. Ele tinha-se gabado aos vizinhos de que estava despachado sargento-mor e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Vilalva e mais ao pai, que era regedor, mandara-lhes dizer que eles brevemente haviam de topar com o seu homem. Da Marta de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua paixão não tinha outro respiradouro. Além disso, não podia esquecer-se da nádega exposta pelo cão às descompostas gargalhadas da rapariga. Era uma vergonha crónica. E, para remate de desastres, voltava para as Lamelas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava cavalgadura – que se deixasse de política e fosse fazer paredes, que é o que ele sabia.

Constava-lhe demais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre em Prazins, e tinha ido com Marta e mais o Simeão ao fogo preso da romaria de Santiago da Cruz. Viram-nos todos três a tomar café de madrugada numa barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, enquanto o velho tosquenejava a dormitar.

O pai de José Dias, o Joaquim de Vilalva, era uni lavrador de primeira ordem. Lavrava quarenta canos de milho e centeio, uma pipa de azeite, dez de vinho, muita castanha, tinha três juntas de bois chibantes e poldros de criação. O José, meeiro no casal, a não se ordenar, era um dos primeiros casamentos do concelho.

O rapaz amava castamente a Marta com a pudicícia do primeiro amor. Ela tinha uma formosura meiga, delicada e suplicante. Parecia pedir que a não imolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a vitima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o sacrifício. Tinha êxtases a contemplar-lhe os cabelos loiros e a pálida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma santa de jaspe – um quadro paradisíaco sem frutas nem cobras.

O José não necessitava pedi-la ao pai na incerteza de uma recusa. Disse-lhe que ela havia de ser a sua esposa: a criança contou ao pai as palavras do amado e o Simeão:

– Ora venha de lá esse abraço, amigo e sê Zé! – e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a sua filha como se quer.

Mas os pais do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo, que a moça de Prazins não era forma de seu pé. A mãe, principalmente, protestava que, enquanto ela fosse viva, a tal filha da Genoveva de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o Diabo, e Deus lhe perdoasse, se pecava. Justificava se dizendo que a Marta era de ruim casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao homem, pintava a manta nas romarias, andara muito falada com um frade de Santo Tirso, e um dia pegara a dar gritos na igreja; toda a gente disse que ela tinha o Demónio no corpo, e afinal morrera doida, atirando-se ao rio Ave.

E constava-lhe que o avô dela também não era escorreito, e quando já tinha sessenta anos mandara fazer uma sobrepeliz, abrira coroa, e onde houvesse um defunto lá ia com um ripanço à igreja e punha-se a cantar como os padres. A tia Maria de Vilalva tinha inconsciente mente este horror moderno, científico da hereditariedade mas o que mais a impulsionava na sua resistência aos rogos do filho era ter sido má mulher e mãe de Marta De má árvore, ruim fruto – era toda a sua filosofia, que se encontra diluída modernamente nas explorações fisiopsicológicas de Janet, de Maudsley e no determinismo.

O Joaquim de Vilalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osório, o de Caldelas, prometia fazer o que a sua companheira fizesse; mas dizia-lhe a ela em particular:

– Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que sim, ouviste?

E ela:

– Deixa-me cá, homem! Vêm barrados. Credo!

(continua...)

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