Por Aluísio Azevedo (1882)
Foi o que ele fez. Meteu-se no fundo de uma casa de pasto e pediu de comer.
— Verdade... verdade... principiou no seu raciocínio; eu ainda não sei bem do que se trata... Quem sabe lá se a mulher do comandante já precisa ser castigada ou precisa ser simplesmente aconselhada?... Sim, porque no fim de contas, ela apenas conversou com o tal pelintra e não o recebeu em casa. Ora, se eu for logo às do cabo, posso talvez ser precipitado; o melhor então é espreitar mais algum tempo, porque se houver qualquer coisa, eu então saberei o que faça!...
Nesse ponto, Tubarão ouviu perto de si uma voz que lhe chamou logo a atenção. Era nada menos, que a voz de um dos sujeitos a quem ele esbordoara na véspera.
— Olá! disse consigo o marinheiro, procurando ocultar-se o melhor possível às vistas do que falava. Não pensei encontrá-lo tão depressa! Ouçamos o que canta este melro...
Era com efeito um dos homens de Pedro Ruivo, que acabava de entrar em companhia de um súcio, e ficara assentado de costas para o marinheiro.
Traziam a conversa principiada de fora, e versava esta justamente sobre os acontecimentos da véspera.
Mas enfim? perguntou o que ainda não era conhecido do Tubarão. Que quer você de mim?...
— Quero que venha comigo; eu já não me fio naquele espanhol! É um chorincas! Se não fora ele, afianço que o sujeito não me saía tão fresco da brincadeira!...
— Mas então vocês não lhe fizeram nada?!...
— Pois se lhe estou a dizer que o espanhol era o único que estava armado e, em vez de sangrar logo o tratante, pôs-se a remanchar e deixou-o ir como veio!...
— Ora, isso contado não se acredita! Eu não o deixaria sair, sem provar o feitio cá da menina! disse o outro com presunção, a bater sobre a algibeira em que guardava a sua faca.
E perguntou, depois de uma pausa:
— Para quando então precisam vocês de mim?!...
— Para depois de amanhã.
— Bem. Nós nos podemos reunir aqui mesmo ou em casa de Pedro Ruivo. — Pedro Ruivo?... disse consigo o Tubarão. Ora espere!...
E ficou a pensar. Lembrava-se perfeitamente de ter já ouvido muitas vezes o nome de Pedro Ruivo, quando alguns conhecidos da família de Cecília falavam a respeito desta, com referência ao passado.
— É o tal sujeito que esteve para casar com ela... concluiu o marinheiro, depois de muito puxar pela memória. Pretenderá persegui-la ainda? Maus raios o partam, se são essas as suas intenções, porque lhe torço o pescoço enquanto o demo esfregar um olho!
E só se retirou quando os dois da outra mesa haviam já saído.
Ao chegar à casa foi logo se encaminhando para a sala de jantar, onde Cecília costumava trabalhar àquelas horas. E com efeito ela lá estava, assentada a uma mesinha de costura, aparentemente toda preocupada com o serviço que tinha em mão. O marinheiro parou à porta, sem ser sentido pela patroa.
— Quem pode lá acreditar que aquilo seja uma pecadora!... disse ele consigo, a contemplar a casta figura da rapariga. Ela nunca lhe parecera tão senhora de si, tão tranqüila. Tinha a fisionomia fresca e louçã como quem vive sem pesos na consciência.
O filhinho brincava a seus pés, entre um montão de alegres destroços; bonecos decepados, um pedaço de uma espada de pau, um tambor inválido e uma cornetinha já sem feitio.
— A patroa dá licença? disse da porta o criado com a sua voz rude de marujo.
— Ah! é você, Tubarão? Entre. Como está?
— Eu, graças à Virgem, não vou com mau vento! E vossemecê? — Bem obrigada, respondeu Cecília, estalando um suspiro.
E como Tubarão ficasse calado:
— Você saiu hoje muito cedo...
— E verdade, resmungou o marujo, coçando a cabeça, sem encontrar um modo de principiar o que desejava dizer. E verdade...
— Que tem você hoje, Tubarão? Estou o estranhando...
— São cá coisas. Eu não preguei olho esta noite!...
— Hem?! perguntou Cecília com sobressalto.
— E, respondeu o outro; passei-a em claro e de pé!...
— De pé?! No seu quarto naturalmente?...
— Sim; à minha janela...
— À sua janela, mas...
— Das onze às três da madrugada...
— Ah! fez Cecília, sem levantar os olhos.
E os dois ficaram mudos, defronte um de outro. Ela principiou a coser com mais empenho, porém a agulha tremia-lhe nos dedos.
— Vou escrever ao patrão!... disse afinal o marinheiro.
— Vai escrever? exclamou a senhora, erguendo-se e deixando cair no chão a costura. Mas que tem você para dizer ao capitão?! Fale com franqueza!
— Eu vi tudo! explicou secamente o marinheiro.
— E por que então não veio ao meu socorro?! Se soubesse o serviço que me teria prestado!
— Como?! O serviço?... vossemecê então não estava por seu gosto a aturar aquele sujeito de ontem?!...
— Oh! Deus sabe porque o aturei!
— E por que foi?...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.