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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Não desanimes! bradava-lhe. — Não desanimes, que o mundo é vasto e havemos de descobrir um canto, onde se possa abrigar o nosso amor! Deus há de proteger-nos!... Enquanto tivermos um pouco de sol, um pouco de ar e um pouco de azul, não nos devemos revoltar contra o destino!

Mas os credores surgiam de todos os lados. Era preciso entregar tudo, tudo, despedir os criados, abandonar aquela casa, aqueles trastes, os cavalos, os carros, as telas preciosas, as porcelanas de Sèvres, os talheres de vermeil.

— Seja! exclamou ela, atirando-se radiante nos braços do marido. Que levem tudo, contanto que tu fiques!

E com a estreiteza da situação redobrava o seu amor pelo Borges, como se o reflexo de toda aquela desgraça o tornasse maior e mais brilhante aos olhos dela.

E, na ocasião de sair, antes de abandonar o ninho, Filomena, entre os trastes desarrrumados para o leilão, na desordem daquela casa esplêndida que eles iam deixar para sempre, soltou uma gargalhada, foi buscar a última garrafa de Champanhe que havia na sua adega, outrora tão rica, quebrou-lhe o gargalo de encontro ao mármore secular de um móvel, e, enchendo uma taça, e colando os lábios nos do marido, e chorando de prazer, brindou à nova existência que se ia abrir defronte deles alegre e luminosa, como uma aurora que surge.

CAPÍTULO XIV

MISÉRIA

Seguiram para S. Paulo, quase sem recursos, levando as jóias na algibeira e, todavia, satisfeitos, cheios de esperança, orgulhosos daquela situação extraordinária, que os unia mais, que os identificava e como que os tinha abraçados e entrelados pela mesma desgraça, cosidos dentro da mesma mortalha.

Hospedaram-se no Grande Hotel, fazendo uma existência difícil, vivendo de expedientes, empenhando diamantes, jogando.

Foi então que se manifestaram em Filomena os primeiros sintomas de gravidez, e este fato, que noutro tempo teria causado a felicidade do pobre Borges, agora representava nada menos que um novo obstáculo a vencer.

Ah! O bom homem fazia esforços supremos para não deixar transparecer o quanto sofria com aquele viver tão contrário ao seu gênio! Mostrava-se forte, resignado, seguro numa fé que não existia, falando a cada instante de fortunas imprevistas, sonhando acasos de grande felicidade que, de um momento para outro, lhe restituísse a sua antiga posição.

Mas passavam-se os dias, e a fortuna sempre esquiva. Embalde furava o Borges por todos os lados, à procura de trabalho, à procura de emprego. Ninguém o queria.

Vinham-lhe então grandes desânimos, que o desgraçado já não podia esconder da mulher. Às vezes, até, depois de um dia de inútil campanha em busca de serviço, ou quando, em vez de ganhar, perdia tudo ao jogo, ou quando se gastava pelos cafés e pelas ruas, cansando-se na convivência dos vadios, tinha acessos de desespero. Entrava em casa brutalmente aniquilado, dando com a cabeça pelas paredes, blasfemando, pedindo em berros a morte e atirando-se tragicamente ao chão, lívido e arquejante.

Oh! mas como Filomena o amava nesses momentos! Com que transporte o recebia no colo, beijando-lhe os olhos em chama, afagando-lhe os cabelos empastados de suor, ameigando-lhe o grosso bigode conspurcado de cerveja e nicotina.

Estranha existência a dessas duas criaturas, que a natureza fez tão diversas. tão contrárias, mas que o acaso lançou no mesmo destino. abraçadas a uma só onda, sofrendo e gozando promiscuamente, sem nunca poderem determinar onde principiava a dor, onde terminava o gozo.

A mesma coisa, que a um fazia padecer, dava ao outro transportes de alegria. Daí esse equilíbrio da lágrima e do riso, que era a fonte de toda a sua coragem e de toda a sua força. Não podia sucumbir nunca, porque um deles estava sempre de pé para amparar o companheiro, quando este porventura vacilasse.

E assim se passaram meses, sem que o Borges conseguis-se arranjar meios seguros de vida. Entretanto, os recursos iam decrescendo; o circulo apertavase em torno deles, à medida que se desenvolvia a gravidez de Filomena.

Tiveram que deixar o primeiro hotel por um outro mais modesto, depois este por outro, até que afinal, sempre fustigados por uma terrível adversidade, refugiaram-se numa hospedaria de terceira ordem, no largo de S. Bento.

Era uma casa térrea, mal frequentada, abafadiça, tresandando a cocheira.

Quando o Borges se apresentou com a mulher, os quartos estavam quase todos ocupados por uma companhia de saltimbancos, que trabalhava daí a dois passos, todas as noites, em uma barraca armada no largo. Um inferno de cães e macacos sábios!

De vez em quando uma briga. Então vinha a polícia: dava-se bordoada, fazia-se muita bulha; mas tudo, no fim de contas, acabava em boa paz.

(continua...)

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