Por Aluísio Azevedo (1884)
Deu uma volta pela sala, foi ao aparador, tomou alguns goles de água e, procurando mudar de conversa, falou do baile que havia essa noite em casa do Melo. — Devia ser muito bom, constava que havia quinze dias se preparavam para a festa. Era em Botafogo. O Campos, logo que recebeu o convite, lembrou-se de levar Amâncio consigo, este, porém, tão raramente aparecia em casa, e agora, com esta mudança...
— Não. O Campos falou-me, disse o estudante.
— Ah! sempre chegou a lhe falar?
— Há três ou quatro dias; mas eu não tencionava ir...
— Por quê? O senhor é moço, deve divertir-se.
— A senhora vai?
— Sim, vou.
— Nesse caso irei também.
E Amâncio ligou tão expressiva entonação àquelas palavras, que Hortênsia abaixou os olhos, já impaciente, sem mais vontade de conversar.
— Seria possível, pensava ela – que aquele estudante lhe quisesse fazer a corte?... Não! não seria capaz disso, e, se fosse, ela saberia desenganá-lo! Ah! com certeza que o desenganava!
Campos subiu daí a um instante, e Amâncio, depois de combinar com ele que voltaria à noite para irem juntos à casa do Melo, entregou as suas malas a um carregador e saiu.
Sentia-se alegre; a nova atitude de Hortênsia dava-lhe um vago antegosto de prazeres; previa com delícia os bons momentos que o esperavam.
— E agora é que vou deixar a casa!...pensava ele já na rua. — Que tolo fui! Abandonar a empresa, justamente quando me sorri a primeira esperança! “Mas pedaço de asno, argumentava com seus botões — não calculaste logo que aquela mulher mais dia menos dia, havia de escorregar? Porque diabo então não esperaste um pouco?...”Ora! mas que caiporismo o meu! Sair nesta ocasião! Perder uma conquista tão boa! Agora também que remédio lhe ei de dar? O que está feito, está feito! A este momento minhas malas talvez já tenham chegado à casa do Coqueiro! E com este nome assaltaram-lhe logo o espírito as imagens de Lúcia e Amelinha.
Bem me dizia o Simões, pensou ele. — Bem me dizia o Simões: “Quando te começarem as aventuras, hás de ver o que vai por esta sociedade!”
E Amâncio, que não conseguia reter na cabeça as palavras dos seus professores, Amâncio, que era incapaz de guardar na memória um fato, um algarismo, uma fórmula científica, conservava, entretanto, com toda a inteireza aquela frase banal, pronunciada por um pândego em um almoço de hotel, depois de meia dúzia de garrafas de vinho.
— O Simões tinha toda a razão... principiavam as aventuras! Diabo era aquela asneira de abandonar tão intempestivamente a casa do Campos! Fora uma triste idéias, que dúvida! Mas, ele também não podias adivinhar quais seriam as intenções de Hortênsia!... O melhor por conseguinte era não se apoquentar - o que lhe estivesse destinado havia de chegar-lhe às mãos!...
E já nem pensava nisso quando subiu as escadas da casa de pensão.
Sorrisos amáveis de Amelinha e Mme.Brizard o receberam desde a entrada.
Coqueiro estava na rua.
Veio a conversa do baile dessa noite. Amâncio, pela primeira vez, ia conhecer uma sala da Corte. As duas senhoras profetizavam que ele voltaria cativo por alguma carioca.
— Duvido! Respondeu o estudante, a rir.
— É! Disse a francesa — vocês do Norte são todos uns santinhos! Eu já os conheço! Nunca vi gente tão assanhada.
Amelinha abaixou os olhos, depois de lançar à outra um gesto repreensivo. Mme. Brizard não fez caso e acrescentou:
— Os demônios não podem ver um rabo-de-saia!
— Loló! Censurou Amelinha em voz baixa.
— Também não é tanto assim!...contradisse o provinciano.
Mme. Brizard citou logo os exemplos de casa, até ali entre todos os seus hóspedes, só os nortistas davam sorte em questão de amor. — Um deles, um tal Benfica Duarte, chegara a raptar com escândalo uma crioula, e crioula feia!
Amelinha, bem contra a vontade, soltou uma risada, que lhe desfez por instantes o ar inocente da fisionomia; mas recuperou-o logo, e lembrou à cunhada “que não deviam estar ali a roubar o tempo a seu Amâncio. Ele tinha que cuidar das malas que já o esperavam no quarto!”
— Nós podemos ajudá-lo nesse trabalho, acudiu a velha. — Certas coisas só ficam bem feitas por mão de mulher!
O estudante aceitou oferecimento, e os três seguiram para o gabinete, sempre a rir e a conversar.
— Amelinha, enquanto Amâncio estrava no quarto, observou, em voz baixa a Mme. Brizard, que não achava conveniente que esta arriscasse em sua presença pilhérias como as de ainda há pouco. — O rapaz, por muito ingênuo que fosse, podia desconfiar com aquilo e persuadir-se de que ela, Amelinha, não daria uma noiva bastante séria e digna dele! Que, às vezes, por estas e outras indiscrições, desmanchavam-se casamentos!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.