Por José de Alencar (1878)
Ele estava só; junto dele não havia outro corpo, mas uma essência divina, em que se imergia; um resplendor que se condensava em formas voluptuosas para envolvê--lo de luz. As chamas dessa luz o abrasavam, mas com uma lava doce e inebriante, que lhe acrisolava o ser. Enfim ele sentiu sua alma desprendendo-se das cinzas, remontava ao céu.
Nesse momento D. Felícia, que voltava do baile com o marido, soltou um grito de terror vendo o grande clarão que avermelhava o horizonte.
Um incêndio violento devorava a casa de Hermano.
Capítulo 21
Cinco anos permaneceram em abandono as ruínas da casa incendiada. Um ilhéu, que alugara a horta para negócio, tratava da chácara.
Já se tinha desvanecido a lembrança do sinistro, quando uma manhã, cerca de onze horas, parou ao portão uma vitória descoberta, conduzindo pessoas com o aspecto muito conhecido de viajantes que desembarcam.
O assento principal era ocupado por uma senhora de rara formosura, trajada com elegância, e por um homem de parecer distinto, ainda moço, apesar dos fios de prata que matizavam os seus cabelos negros.
Em frente a eles ficava uma gentil menina de quatro anos, na qual reproduzia-se como em uma miniatura a beleza da senhora, porém, com certo contraste de fisionomia. Tinha as feições da mãe, os mesmos traços, a mesma expressão; mas os cabelos e os olhos eram castanhos, e não louros.
Um criado velho, que vinha ao lado do cocheiro, saltara do carro e abrira o portão, enquanto o cavalheiro apeava-se com a família.
— Espera-nos aqui, Abreu, disse a senhora entregando a filha ao criado, e não deixe Julieta apanhar sol.
Tomando então o braço do marido, seguiu pelo passeio gramado da chácara na direção das ruínas que apareciam por entre as árvores e indicavam o lugar onde fora a casa.
O incêndio desmoronando o teto e consumindo todo o madeiramento deixara em pé as paredes do edifício de modo que de fora via-se como um esqueleto a antiga habitação com seus aposentos e divisões.
— Lembras-te, Hermano? perguntou a senhora fitando no marido seus grandes olhos cheios de luz.
— De tudo, Amália, respondeu simplesmente o marido.
Como para confirmar a sua asseveração, Hermano começou a recordar as reminiscências dos dias que ali vivera com Amália, apontando os menores incidentes e os lugares da casa em que tinham ocorrido.
Amália respirou do soçobro em que trazia a alma e que debalde tentava abafar. A casa, que a memória de Julieta enchia antigamente, agora não era mais povoada senão de sua lembrança.
Daí passaram à chácara e percorreram os sítios, em que tão viva era para Hermano a presença de sua primeira mulher. Essas recordações primitivas tinham sido apagadas pelas outras recordações mais recentes de seu amor por Amália.
Outrora o passado surgia com tanto vigor na vida desse homem que anulava o presente. Agora era o presente que reagia de modo a substituir-se ao passado. Hermano não se lembrava de ter amado nunca outra mulher senão a sua Amália; e identificava tão completamente as duas esposas, que Julieta já não era para ele senão um primeiro nome daquela a quem se unira para sempre.
Afinal sentaram-se para descansar em um sombrio formado pela copa de uma mangueira frondosa, donde pendiam ramas de maracujá.
Hermano recolheu-se, como para penetrar mais profundamente em suas recordações, e murmurou:
— Não me lembro do incêndio!
Amália conchegou-se, e apoiando o rosto na espádua do marido começou a sussurrar-lhe ao ouvido, cobrindo a face com a mão para esconder o rubor:
— Tu me deixaste no baile... Eu tive um pressentimento cruel, e corri. Felizmente ainda
encontrei-te: estavas na sala em pé. Foi talvez o rumor de meus passos que te perturbou. Eu prendi-te nos meus braços com receio que me fugisses. Tu me contaste tudo. Querias morrer para não ser infiel a Julieta e tinhas preparado o incêndio que devia consumir o teu corpo, e a imagem daquela que tu amavas. Eu também devia morrer, e consumir-me contigo. Foi então que nossos lábios se tocaram. Tu me pertencias; e eu salvei-te para o meu amor. Era preciso arrancar-te desta casa; quando partimos, sem que nos vissem, deixei nela o incêndio que a devorou. Depois partimos para a Europa e...
— E eu renasci para a felicidade, disse Hermano, cingindo a loura cabeça da moça e pousando-lhe um beijo na face.
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ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.